A maioria dos pais e mães que conheço tem entre suas
preocupações a filha ou o filho “ser alguém na vida”. Há uma
grande ansiedade em atuar desde criança para que os filhos
“cheguem lá”. E aí é que pode morar o perigo, segundo a
psicóloga comportamental americana Alison Gopnik. Para
ela, nessa ânsia de impulsionar resultados dos rebentos, o
que os pais e mães acabam muitas vezes fazendo é limitar o
potencial deles.
“Muitos pais se concentram em fazer com que os filhos
aprendam mais, melhor e mais rápido”, escreve Alison no livro
O jardineiro e o Carpinteiro. “Nosso trabalho como pais não
é moldar a mente dos nossos filhos: é deixar que explorem
todas as possibilidades que o mundo permite. Não é dizer às
crianças como brincar: é disponibilizar os brinquedos.”
Conheci Alison num curso. Em sua palestra, ela mostrou
vídeos de um experimento feito com crianças em idade pré-
-escolar e um brinquedo de tubos em que um fazia barulho,
outro acendia, outro tocava música, outro tinha um espelho.
Para metade das crianças, o pesquisador falou algo na linha:
“Olhe meu brinquedo! Vou mostrar como funciona”. Para a
outra metade, não disse nada. As crianças ensinadas previamente a usá-lo interagiam com ele de forma mais limitada. Já
as demais brincaram mais livremente.
Ao mesmo tempo que as famílias foram encolhendo e
tendo filhos mais tarde, muitos pais e mães passaram a trabalhar mais, focar a carreira e apelar a sites, canais e livros
que “ensinam” a educar as crianças.
E aí está outro problema na visão de Alison: o cuidado
dos filhos passou a ser visto também como forma de trabalho, em vez de forma de amor. “Se você aceita a ideia de que
ser pai é um tipo de trabalho, então você deve escolher entre
esse tipo de trabalho e outros tipos de trabalho. As mães
vivem infinitamente em conflito e se sentem forçadas a escolher entre diminuir a importância da maternidade e renunciar
à carreira.”, afirma Alison.
E o que tudo isso tem a ver com o jardineiro e o carpinteiro do livro de Alison? O pai carpinteiro é o que tenta esculpir
o filho para se tornar um certo tipo de pessoa. Já o jardineiro
não consegue formar sozinho as plantas ou flores: trabalha
para criar as condições para que elas floresçam.
A ideia de atuar como jardineiro pode ajudar a preparar
os pais para a independência dos filhos. “Nossos filhos não
só são independentes de nós e autônomos, como também
fazem parte de uma nova geração que é autônoma e independente da anterior”, afirma.
E aí? Você se identifica mais com o estilo jardineiro ou
carpinteiro?
(Luciana Garbin. O Estado de S.Paulo, 4 de abril de 2024. Adaptado)
A frase formulada a partir do texto mantém a concordância correta na alternativa: