Dentre as afirmações a seguir, aquela que melhor se depreend...
Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 7.
Caixinhas
Ninguém jamais ficou sabendo o que, exatamente, o Ramão fez para a mulher, mas um dia ela começou a colecionar caixinhas. Nunca fora de colecionar nada e, de repente, começou a juntar caixas, caixetas, potezinhos, estojos. Em pouco tempo, tinha uma coleção considerável. O próprio Ramão se interessou. Dizia:
— Mostre a sua coleção de caixas, Santinha.
E a Santinha mostrava para as visitas a sua coleção de caixas.
— Que beleza!
As caixas, caixinhas, caixetas, potes, potezinhos, estojos, baús cobriam algumas mesas e várias estantes. Era realmente uma beleza. Mas, estranhamente, a Santinha era a que menos se entusiasmava com a própria coleção. Os outros a admiravam, ela não dizia nada. Ou então fornecia alguma informação lacônica.
— Essa é chinesa.
Ou:
— É pedra-sabão.
Ninguém mais tinha problemas sobre o que dar para a Santinha no seu aniversário ou no Natal. Caixas. E as amigas competiam, cada uma querendo descobrir uma caixa mais exótica para a coleção da Santinha. Uma caixinha tão pequenininha que só cabia uma ervilha. Um baú laqueado que, supostamente, pertencera ao Conde d’Eu. Etc. etc.
O Ramão também contribuía. Quando saía em uma das suas viagens, nunca deixava de trazer uma caixinha para a Santinha. Que Santinha aceitava, sem dizer uma palavra, e acrescentava à sua coleção. E a coleção já cobria a casa inteira.
Quando a polícia, alertada pelos vizinhos, entrou na casa, viu o sangue, viu a Santinha sentada numa cadeira, muda, folheando a Amiga, mas a princípio não viu o Ramão. Só o viu quando começou a abrir as caixinhas. Havia um pouco do Ramão em cada caixinha. Até na que só cabia uma ervilha tinha um ossinho. Um fêmur estava no baú do Conde. E a Jacira ficou escandalizada quando soube que a cabeça do Ramão foi encontrada numa caixa de chapéu antiga que ela tinha trazido para a Santinha de Paris. Veja só, de Paris! Ninguém desculpou a Santinha, mas o consenso geral era de que alguma o Ramão tinha feito.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
Dentre as afirmações a seguir, aquela que melhor se depreende, a partir da leitura do texto, é:
- Gabarito Comentado (1)
- Aulas (1)
- Comentários (1)
- Estatísticas
- Cadernos
- Criar anotações
- Notificar Erro
Gabarito comentado
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TEMA CENTRAL DA QUESTÃO:
A questão avalia interpretação de texto, mais especificamente a capacidade de inferência, leitura implícita e análise do comportamento dos personagens. O objetivo é identificar, a partir do contexto, aquilo que não está descrito literalmente, mas é sugerido pelo texto. Essa habilidade é essencial para provas de concursos, conforme ensina Evanildo Bechara: “interpretar é apreender o sentido total da mensagem, para além das palavras explícitas”.
JUSTIFICATIVA DA ALTERNATIVA CORRETA (C):
A alternativa “Ramão foi julgado pelas pessoas que o conheciam por conta de sua morte” é a mais adequada. O texto afirma: “Ninguém desculpou a Santinha, mas o consenso geral era de que alguma o Ramão tinha feito.” Isso indica o julgamento feito pelas pessoas sobre Ramão, mesmo após sua morte, inferindo que acreditavam em algum motivo oculto para o crime. Esta interpretação vai além do texto explícito e requer leitura atenta dos implicitos e contexto.
ANÁLISE DAS ALTERNATIVAS INCORRETAS:
A) Incorreta, pois não há informação de que os vizinhos sabiam dos planos de Santinha. Os vizinhos apenas chamaram a polícia após suspeitarem de algo anormal.
B) Errada, porque Jacinta nem sequer existe no texto; quem é citada é Jacira, e ela não participou do crime.
D) Considera que não havia desconfiança dos vizinhos, mas o texto mostra que houve um alerta à polícia, sugerindo sim alguma suspeita.
E) Falsa, pois Ramão participava da coleção: pedia para Santinha mostrar as caixas e trazia presentes de viagem. Não há relação direta da suposta falta de dedicação com o crime.
ESTRATÉGIAS E ORIENTAÇÃO:
Em questões assim, busque sempre:
- Diferenciar o que está dito do que está sugerido;
- Ler cuidadosamente para identificar implícitos e inferências;
- Desconfiar de alternativas que extrapolam informações ou distorcem fatos do texto.
Essas dicas seguem as orientações de gramáticas como Cunha & Cintra, que reforçam a análise lógica e semântica como base da compreensão textual.
Conclusão: A alternativa C é a correta, pois só ela decorre logicamente dos elementos do texto.
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Comentários
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C - " Ninguém desculpou a Santinha, mas o consenso geral era de que alguma o Ramão tinha feito."
D - extrapolação, em momento algum tem essa informação no texto. ( da vontade de marcar pq faz sentido kkk)
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