Pode ser um daqueles truques que a memória nos
prega, mas me lembro que, na bolha da minha infância mineira, a palavra "pandemônio" tinha ampla
circulação.
Não é que o mundo que eu habitava fosse especialmente confuso ou cacofônico. Comparado ao de
hoje, tinha uma simplicidade de três acordes da “Jovem Guarda” ‒ que, aliás, lhe providenciava a maior
parte da trilha sonora.
O que acontecia era que, nas asas eternas da hipérbole, do exagero, do drama, o pandemônio era invocado para qualificar desordens mínimas. Por exemplo, a de um quarto de criança com dois gibis do Pato
Donald, três carrinhos Matchbox e um pé de Kichute
largados no chão.
Só muitos anos depois aprendi que o pandemônio,
termo tão corriqueiro, tinha uma origem não apenas
literária, mas enraizada na alta cultura. Era um termo
erudito, eruditíssimo, que havia caído na vida. Como?
Não é tão simples desvendar esse como porque rola
no mundo dos vocábulos uma clara tendência ao
pandemônio. O que podemos fazer no caso é reconstituir com relativa segurança a fonte primária da palavra – e isso não é pouco.
Os etimologistas, que não gostam muito de concordar uns com os outros, concordam que se trata de
um neologismo culto, um termo inventado pelo poeta inglês John Milton (1608-1674) em sua obra-prima
"Paraíso Perdido". Esse longo poema épico de inspiração religiosa, lançado em 1667, tem entre seus
personagens Adão, Eva, Deus e Satã. Pandemonium
vem a ser o local de trabalho deste último: o palácio, o quartel-general onde labutam o “Rabudo” e seus
demônios subordinados.
O nome traduzia justamente esse coletivo. Milton o
criou juntando dois elementos gregos: "pan" (todos)
e "daimónion" (demônios), este após tabelinha com
o latim "daemonium". Ou seja, o Pandemonium era o
local onde se reunia a diabada toda.
Sobre a bem-sucedida carreira do pandemônio na
linguagem comum há pistas esparsas. O dicionário
etimológico de Douglas Harper registra, para o inglês,
o surgimento do sentido expandido ‒ e já atenuado,
pois não diabólico ‒ de "lugar de balbúrdia e desordem" cerca de um século após a publicação de "Paraíso Perdido".
Daí até o pandemônio chegar ao meu quarto infantil
bagunçado foi preciso fazer uma escala em 1877, ano
do primeiro registro do vocábulo em português, no
dicionário Morais.
Hoje o Houaiss tem como uma das acepções da palavra uma fórmula domesticada e próxima do sentido
em que a conheci: "mistura caótica de pessoas ou
coisas; confusão".
Desconfio que o pandemônio já não ocupe posição
tão privilegiada na linguagem familiar brasileira. Desde aquele tempo a sensação de desordem cresceu, e
com ela o número de palavras encarregadas de traduzi-la. Da chula zona ao científico caos, do cômico
furdunço ao popular angu de caroço, não faltam rivais para dividir as preferências do público e desafiar
a autoridade vocabular do pandemônio.
Um dos sentidos de pandemônio no Houaiss ‒ "associação de pessoas para praticar o mal ou promover
desordens e balbúrdias" ‒ sugere que pode estar na
hora de tirá-lo da gaveta.
* Escritor e jornalista.
Folha de São Paulo, 11 de maio de 2022. Adaptado.
A comparação do título com o texto integral permite afirmar, fundamentalmente, que o autor, para defender seu
ponto de vista,
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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