A teoria das causas cerebrais dos transtornos mentais
passou gradualmente a ironizar tudo o que se relacionava com a
forma de vida do sujeito, compreendida como unidade entre
linguagem, desejo e trabalho. As narrativas de sofrimento da
comunidade ou dos familiares com quem se vive, a própria
versão do paciente, o seu “lugar de fala” diante do transtorno,
tornaram-se epifenômenos, acidentes que não alteram a rota do
que devemos fazer: correção educacional de pensamentos
distorcidos e medicação exata.
Quarenta anos depois, acordamos em meio a uma crise
global de saúde mental, com elevação de índices de suicídio,
medicalização massiva receitada por não psiquiatras e
insuficiência de recursos para enfrentar o problema.
Esse é o custo de desprezar a cultura como instância
geradora de mediações de linguagem necessárias para que
enfrentemos o sofrimento antes que ele evolua para a formação
de sintomas. Esse é o desserviço dos que imaginam que teatro,
literatura, cinema e dança são apenas entretenimento acessório —
como se a ampliação e a diversidade de nossa experiência
cultural não fossem essenciais para desenvolver capacidade de
escuta e habilidades protetivas em saúde mental. Como se eles
não nos ensinassem como sofrer e, reciprocamente, como tratar o
sofrimento no contexto coletivo e individual do cuidado de si.
Christian Dunker. A Arte da quarentena para principiantes.
São Paulo: Boitempo, 2020, p. 32-33 (com adaptações).
Acerca das ideias do texto CG1A1-I, julgue o item a seguir.
Infere-se do texto que, quanto mais variadas forem as
vivências artísticas de um indivíduo, menor será a
probabilidade de adoecimento mental.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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