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Q3294303 Português
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.


Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.


Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.


Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.


Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.


Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.


É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.


Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.


Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.


A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.
(Pertencer, Clarice Lispector)
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Alternativas

Gabarito comentado

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Questão de Interpretação de Texto – Tema central: Identificação da ideia principal do texto, habilidade essencial em concursos públicos, baseada na análise do sentido global e na compreensão dos elementos-chave do texto.

Justificativa da Alternativa Correta – D) A necessidade de pertencer para viver plenamente

Para resolver a questão, devemos aplicar o conceito de identificação da ideia principal. Conforme Cunha & Cintra, "a ideia principal é a mensagem nuclear do texto". O texto de Clarice Lispector enfatiza, desde o início, a sensação de que pertencer é algo intrínseco ao ser humano — um desejo quase orgânico, que se manifesta no berço e acompanha toda a vida. Destacam-se expressões como: “a minha primeira vontade foi a de pertencer” e “pertencer é viver”. Estes trechos indicam claramente que a autora vê o pertencimento como condição indispensável a uma existência plena.

Estratégia para resolução: Busque sempre os termos recorrentes e as conclusões do autor no fechamento do texto, pois normalmente nelas reside a ideia central.

Análise das Alternativas Incorretas:

A) A importância da independência. A autora não valoriza a independência, mas sim a necessidade de conexão. O texto gira em torno da busca por pertencimento, não por autonomia.

B) A dificuldade de se relacionar. Apesar de a autora mencionar certa arisca ou dificuldade relacional, esse detalhe serve para reforçar a fome de pertencer, e não para ser o foco do texto.

C) A busca pelo sentido da vida. O sentido da vida é mencionado de modo implícito, mas sempre associado ao pertencimento. O propósito de vida, segundo o texto, está em pertencer, tornando essa alternativa genérica demais frente à ideia central defendida.

Resumo: A alternativa D representa com precisão o sentido global do texto, pois interpreta corretamente a relação causal estabelecida pela autora: pertencer é viver plenamente.

Dica para concursos: Sempre que a questão pedir a ideia principal, busque argumentos ou frases que sintetizem a essência do sentimento ou posição do autor.

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