Acerca do narrador do texto acima, assinale a alternativa co...
Texto para questões 01 a 03
Sempre achei que o meu dono subestimava as minhas capacidades. Bem gostaria nesse momento de poder falar para lhe dizer que até francês aprendi no tempo dos jogos de cartas. E que bem podiam baixar a voz ao mínimo entendível que eu ouvia sem esforço, bastando ajustar o tamanho das orelhas. Mas se tão pouco valor me atribuía, então também não merecia o meu esforço de lhe fazer compreender o contrário, morresse com a sua ideia. Uma desforra para tanto desprezo seria contar toda a sua estória, um dia. Soube então que o faria, apesar de mudo e analfabeto. Usando poderes desconhecidos, dos que se ocultam no pó branco da pemba ou nos riscos traçados nos ares das encruzilhadas pelos espíritos inquietos. Fosse de que maneira fosse, tive a certeza de que o meu relato chegaria a alguém, colocado em impreciso ponto do tempo e do espaço, o qual seria capaz de gravar tudo tal qual testemunhei. (PEPETELA, A Gloriosa Família.1999, p. 394)
Acerca do narrador do texto acima, assinale a alternativa correta:
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Gabarito comentado
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Gabarito Comentado – Questão de Interpretação de Texto – Narrador e Foco Narrativo
Tema central: Esta questão aborda interpretação de texto, especificamente a análise do foco narrativo (primeira pessoa) e o papel do narrador-personagem como voz marginalizada, além do conceito de subversão da narrativa oficial.
Alternativa correta: A) Está em primeira pessoa e representa a subversão da narrativa oficial na qual pretende apresentar a visão do excluído.
Justificativa: O texto é narrado em primeira pessoa (“Sempre achei...”, “Soube então...”), mostrando claramente que o narrador participa dos fatos e expressa uma experiência subjetiva. Trata-se de um cão, ser tipicamente excluído, que questiona a visão de seu dono, sugerindo ter capacidades subestimadas e desejando contar sua própria opção de verdade. Isso subverte a narrativa oficial (aquela que seria contada a partir dos donos/poderosos) e apresenta a experiência de quem normalmente seria silenciado – o excluído.
A teoria do narrador-personagem, segundo Cunha & Cintra, implica a presença do “eu” que participa da história, trazendo uma perspectiva interna. Evanildo Bechara lembra que tal narrador só relata o que percebe, o que confere subjetividade e questionamento – elementos centrais desta alternativa.
Análise das alternativas incorretas:
B) “Colocado à margem da narração, fazendo parte da narrativa oficial” está equivocada: o narrador está à margem no sentido social, mas não faz parte da narrativa oficial – ele a contrapõe com sua própria versão.
C) “Não oferece um questionamento ao discurso do poder” contradiz o enredo; ao contrário, o narrador critica e desafia o olhar do dono sobre si, expondo sua capacidade e inteligência.
D) Não há viés confirmativo: dar voz ao cão é justamente romper com o silenciamento, mostrando que a submissão e a invisibilização não eram apenas para quem não podia falar ou ouvir.
Estratégia para provas: Ao identificar o uso da primeira pessoa e a abordagem da perspectiva de personagens marginalizados, atente à possibilidade de subversão ou crítica à narrativa dominante. Sempre busque palavras que indiquem subjetividade e oposição – como “não merecia meu esforço” ou “morresse com sua ideia”.
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