Dizer que estamos “enxugando o gelo” é uma forma
popular de descrever nossa impotência diante das causas
de um problema, que nos condena a somente minimizar os
danos dele decorrentes. É o caso de quem atua na área da
saúde, que convive diariamente com os limites das intervenções ao seu alcance. Também como usuários do sistema
de saúde somos confrontados com fatores estruturais que
condicionam nossos comportamentos. Essas constatações
estão entre os muitos modos de explicar o que chamamos de
“determinantes sociais da saúde”.
Ao defini-los, a Organização Mundial da Saúde (OMS)
afirma que a esperança de vida é influenciada por fatores
como o lugar onde se vive, o nível de escolaridade, a raça, o
gênero, entre outros. Em relatório recente analisando os indicadores dos países com maior e menor expectativa de vida,
a organização identificou uma diferença média de 33 anos.
Ao contrário do que se poderia imaginar, os extremos não
correspondem diretamente aos países com maior e menor
renda. Tal complexidade vem levando ao uso, por extensão,
de expressões como “determinantes geopolíticos da saúde”.
Trata-se de uma provocação no sentido de explorar os
impactos da atualidade internacional sobre a saúde pública. É preciso reconhecer que o campo das relações internacionais não dá aos temas de saúde coletiva a atenção que
merecem. Entre muitos exemplos, menciono uma emergência de saúde pública atual, que é a poliomielite. Declarada
em maio de 2014, a continuidade dessa emergência foi
confirmada pela OMS. Como é possível que uma “emergência” dure quase doze anos? A resposta está nos conflitos
armados que puseram fim ao sonho de erradicar uma doença cuja persistência é vergonhosa.
Isto significa que, além dos numerosos civis mortos e
feridos, há muitas outras dimensões do aniquilamento da
saúde a lamentar. Alguém diria: basta fechar as fronteiras ou fazer exigências rigorosas sobre a saúde de quem viaja.
Na prática, restrições formais jamais evitaram que pessoas
passassem de um território a outro, eis que as motivações
que as levam a mover-se prescindem de um despachante,
em muitos casos sendo a simples sobrevivência. O que as
restrições encorajam é o ingresso irregular, que depaupera
inutilmente quem circula, por vezes famílias inteiras que
vão perdendo o que possuem ao longo de deslocamentos.
Permitir a entrada regular, prestando assistência a quem
chega e acompanhando seu percurso por meio da vigilância
em saúde, é a melhor forma de proteger um país. A propósito, o Sistema Único de Saúde é um bastião da segurança
nacional ao garantir o acesso à saúde a todas as pessoas
que se encontram em nosso território.
(Deisy Ventura, “Determinantes geopolíticos da saúde:
uma chamada à reflexão e à ação”, Jornal da USP.
Disponível em: https://jornal.usp.br/. Adaptado)
Considere a passagem:
“Ao contrário do que se poderia imaginar, os extremos
não correspondem diretamente aos países com maior e
menor renda” (2°
parágrafo).