Quando eu era pequeno, assistia eletrizado àqueles filmes de cadeia em branco e preto. Os prisioneiros vestiam
uniforme e planejavam fugas de tirar o fôlego na cadeira
do cinema.
Em 1989, vinte anos depois de formado médico cancerologista, fui gravar um vídeo sobre AIDS na enfermaria da
Penitenciária do Estado, construção projetada pelo arquiteto
Ramos de Azevedo nos anos 20, no complexo do Carandiru,
em São Paulo. Quando entrei e a porta pesada bateu atrás
de mim, senti um aperto na garganta igual ao das matinês do
cine Rialto, no Brás.
Nas semanas que se seguiram, as imagens do presídio
não me saíram da cabeça. Os presos na soleira das celas,
o carcereiro com a barba por fazer, um PM de metralhadora
distraído na muralha, ecos na galeria mal iluminada, o cheiro,
a ginga da malandragem, tuberculose, caquexia, solidão e a
figura calada do Dr. Getúlio, meu ex-aluno no cursinho, que
cuidava dos presos com AIDS.
Duas semanas depois, procurei o dr. Manoel Schechtman,
responsável pelo departamento médico do sistema prisional, e
me ofereci para fazer um trabalho voluntário de prevenção à
AIDS. Na conversa, o Dr. Manoel me explicou que a situação
da epidemia na Penitenciária não era das piores se comparada
à dos 7.200 presos da Casa de Detenção, o maior presídio
do país, situado no mesmo complexo, de frente para a movimentada avenida Cruzeiro do Sul, vizinho do metrô, a dez
minutos da praça da Sé, quilômetro zero de São Paulo.
O trabalho começou em 1989 e dura até hoje. Com o
apoio da Universidade Paulista (UNIP), uma instituição particular de São Paulo, fizemos pesquisas epidemiológicas
sobre a prevalência do HIV, organizamos palestras, gravamos vídeos, editamos a revista em quadrinhos Vira-Latas, e
atendi doentes. Com os anos, ganhei confiança e pude andar
com liberdade pela cadeia. Ouvi histórias, fiz amizades verdadeiras, aprendi medicina e muitas outras coisas. Na convivência, penetrei alguns mistérios da vida no cárcere, inacessíveis se eu não fosse médico.
Neste livro, procuro mostrar que a perda da liberdade
e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie, ao
contrário do que muitos pensam. Em cativeiro, os homens,
como os demais grandes primatas (orangotangos, gorilas,
chimpanzés e bonobos), criam novas regras de comportamento com o objetivo de preservar a integridade do grupo.
Esse processo adaptativo é regido por um código penal não
escrito, como na tradição anglo-saxônica, cujas leis são aplicadas com extremo rigor:
– Entre nós, um crime jamais prescreve, doutor.
Pagar a dívida assumida, nunca delatar o companheiro,
respeitar a visita alheia, não cobiçar a mulher do próximo,
exercer a solidariedade e o altruísmo recíproco, conferem
dignidade ao homem preso, o desrespeito é punido com desprezo social, castigo físico ou pena de morte:
– No mundo do crime, a palavra empenhada tem mais
força do que um exército.
Não é objetivo deste livro denunciar um sistema penal
antiquado, apontar soluções para a criminalidade brasileira
ou defender direitos humanos de quem quer que seja. Como
nos velhos filmes, procuro abrir uma trilha entre personagens
da cadeia: ladrões, estelionatários, traficantes, estupradores,
assassinos e o pequeno grupo de funcionários desarmados
que toma conta deles.
A narrativa será interrompida pelos interlocutores, para
que o leitor possa apreciar-lhes a fluência da linguagem, as
figuras de estilo e as gírias que mais tarde ganham as ruas.
Por razões éticas, os casos descritos nem sempre se
passaram com os personagens a que foram atribuídos. Como
diz a malandragem:
– Numa cadeia, ninguém conhece a moradia da verdade.
(Drauzio Varella, Estação Carandiru. Adaptado)
Nos três primeiros parágrafos, o autor compara a realidade da penitenciária com os filmes aos quais assistia
enquanto criança.
Segundo o autor,
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