A felicidade invadiu de tal modo nosso imaginário cultural
que se tornou uma presença excessiva em nosso cotidiano
‒ atualmente é raro passarmos um dia inteiro sem ouvir ou
ler alguma coisa sobre ela. Uma simples busca na internet
resulta em centenas de milhares de ocorrências do termo “felicidade”. O mesmo vale para o número de postagens que as
pessoas compartilham todos os dias nas redes sociais. Esse
cenário revela que a felicidade vem desempenhando um papel fundamental na compreensão corriqueira que temos de
nós mesmos e do mundo. É uma noção que nos parece e
soa tão familiar que já nem pensamos nela ‒ seria estranho
ousar questioná-la.
Não apenas a frequência e a onipresença das ocorrências da palavra “felicidade” aumentaram radicalmente nas
últimas décadas: o modo como entendemos a felicidade também passou por uma transformação drástica. Já não a relacionamos ao destino ou a circunstâncias particulares ‒ ausência de problemas, corolário de uma vida plena, ou então
mero prêmio de consolação para os pobres de espírito. Hoje
ela costuma ser vista como algo passível de ser engendrado
pela força de vontade; resultado do treino de nossa força interior e nosso eu autêntico; única meta que faz a vida valer
a pena; o padrão pelo qual devemos medir o valor de nossa
biografia, o tamanho de nossos sucessos e fracassos; e a
dimensão de nosso desenvolvimento psíquico e emocional.
A felicidade passou a ser a encarnação da imagem ideal
contemporânea do bom cidadão.
(Edgar Cabanas e Eva Illouz.
Happycracia – fabricando cidadãos felizes, 2022. Adaptado)
Em “É uma noção que nos parece e soa tão familiar que
já nem pensamos nela ‒ seria estranho ousar questioná-la.” (1º parágrafo), o travessão pode ser substituído, sem
prejuízo ao sentido original, por