A afirmação, no contexto do 2º parágrafo, de que O propósito...

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Q3916754 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Escrever é verbo que briga com o sujeito


   No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de "universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

   Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor" e "escrever". É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

   O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade - quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro - o que é natural.


(RODRIGUES, Sérgio. "Ilustrada". Folha de S. Paulo. 20 agosto de 2025)
A afirmação, no contexto do 2º parágrafo, de que O propósito terapêutico [...] não importa no mundo do texto ganha um reforço argumentativo quando se assevera, no 3º parágrafo, que
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O comando pede o trecho do 3º parágrafo que reforça a afirmação do 2º parágrafo, e esse reforço decorre da oposição semântica entre os propósitos: "O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto. / O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele." Como a letra A parafraseia fielmente essa relação, ela é a correta.

Tema central: reforço argumentativo textual
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A reproduz com fidelidade a ideia decisiva do 3º parágrafo: o propósito estético da escrita literária não apenas se separa de um eventual propósito clínico, mas se coloca em sentido oposto a ele. É exatamente essa oposição que reforça a afirmação anterior de que o propósito terapêutico "não importa no mundo do texto". A correspondência entre "projeto estético" e "propósito estético", assim como entre "oposto" e "o contrário dele", preserva o núcleo semântico exigido pela questão.
B
Errada
A alternativa desloca o foco para outro ponto do 3º parágrafo: a cautela com a metáfora de Doctorow sobre esquizofrenia. Esse trecho trata da associação entre arte e loucura, não do reforço da tese de que o propósito terapêutico é irrelevante para o texto literário. Está no mesmo parágrafo, mas não é a relação argumentativa pedida.
C
Errada
A alternativa contradiz diretamente o texto. O autor afirma que o propósito terapêutico "não importa no mundo do texto" e, em seguida, explica que o propósito estético olha "para fora do sujeito, para o mundo das palavras". Portanto, não há concentração nas possibilidades curativas da arte, mas afastamento delas como critério de leitura literária.
D
Errada
A alternativa é eliminada por extrapolação e por contradição com o texto. O texto não atribui à arte romântica qualquer exclusividade em finalidade clínica ou "sanitarista"; ao contrário, afirma que "nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura". Além disso, a formulação da alternativa introduz conteúdo que não aparece no texto.
E
Errada
A alternativa inventa uma condição inexistente no texto: a superação prévia de traumas psíquicos. O que o autor diz é que a "ferida anímica" pode interessar a quem escreve, mas é irrelevante para quem lê no plano do texto. Não há afirmação de que a singularidade da escrita artística dependa de cura, superação ou resolução prévia desses traumas.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre qualquer afirmação do 3º parágrafo e o trecho que realmente reforça a ideia do 2º. O núcleo da resposta não está na passagem sobre metáfora, loucura ou romantização da literatura, mas na oposição entre propósito estético e propósito clínico.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando mencionar reforço argumentativo entre parágrafos, localize primeiro a tese de origem e depois procure a passagem que a intensifica ou a justifica diretamente.
  • Em interpretação, prefira a alternativa que faça paráfrase fiel da relação semântica central do texto, sem acrescentar conteúdo novo.
  • Não escolha uma opção só porque ela retoma trecho do parágrafo citado; verifique se ela responde exatamente ao vínculo pedido pelo enunciado.
  • Desconfie de alternativas que psicologizam, generalizam ou especializam o texto além do que ele afirma expressamente.

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Comentários

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LETRA: A

O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras.

A alternativa correta é:

A) o projeto estético da arte literária é de certa forma oposto a um ocasional intuito clínico.

✅ Por quê?

No 2º parágrafo, o texto afirma:

“O propósito terapêutico [...] não importa no mundo do texto.”

Ou seja: a escrita literária não tem como foco curar o autor ou tratar questões psicológicas.

No 3º parágrafo, essa ideia é reforçada explicitamente:

“O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele.”

Aqui está o reforço:

  • não só não tem função terapêutica,
  • como também se opõe a ela.

Isso corresponde exatamente à alternativa A.

❌ Por que as outras estão erradas?

B)

Fala de cautela com metáforas

❌ Isso aparece no texto, mas não reforça a ideia sobre função terapêutica.

C)

Diz que o escritor se concentra nas possibilidades curativas

❌ Contrário ao texto.

D)

Menciona “arte romântica” e “desígnio sanitarista”

❌ Nada disso é dito — alternativa inventa conteúdo.

E)

Fala em “superação prévia dos traumas”

❌ O texto não afirma isso — diz que a questão psicológica é irrelevante para o leitor.

A) o projeto estético da arte literária é de certa forma oposto...: CORRETA. É a paráfrase perfeita do início do terceiro parágrafo, servindo de justificativa lógica para a irrelevância do fator terapêutico dita no segundo.

B) é preciso ser cauteloso na formulação de metáforas para se definir o que é literatura: Incorreta. Embora o autor peça cautela ao analisar a metáfora da "esquizofrenia" de Doctorow, essa observação serve para evitar a romantização da loucura na arte, e não para fundamentar a separação entre estética e terapia.

C) o ofício de um escritor leva-o a se concentrar nas possibilidades curativas de sua arte: Incorreta. O texto defende o oposto: o propósito estético olha "para fora do sujeito, para o mundo das palavras", afastando-se de qualquer foco em "cura" ou clínica.

D) tão somente a arte romântica é capaz de cumprir um desígnio de fundo sanitarista: Incorreta. O autor nega a visão romântica ao final do texto e rejeita a ideia de que a literatura tenha um desígnio "sanitarista" (de saúde/tratamento).

E) a singularidade da escritura artística está na superação prévia dos traumas psíquicos: Incorreta. O texto não exige a "superação prévia" de traumas para que a arte aconteça; ele apenas diz que se o trauma for a motivação, isso não interessa ao leitor.

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