Diante da afirmativa do romancista americano E. L. Doctorow ...

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Q3916753 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Escrever é verbo que briga com o sujeito


   No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de "universal” aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

   Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, “escritor" e "escrever". É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê. O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto.

   O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade - quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro - o que é natural.


(RODRIGUES, Sérgio. "Ilustrada". Folha de S. Paulo. 20 agosto de 2025)
Diante da afirmativa do romancista americano E. L. Doctorow (3º parágrafo), o autor do texto
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O trecho decisivo é: "Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade - quem escreve pode mesmo \"ouvir\" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo." O encadeamento entre cautela, concessão metafórica e ressalva por "Contudo" configura relativização e sustenta o gabarito C.

Tema central: Posicionamento diante de citação
Análise das alternativas
A
Errada
A recusa integral é contradita pelo reconhecimento de que a metáfora tem utilidade. Além disso, o texto não restringe a discussão aos grandes escritores, distinção acrescentada pela alternativa.
B
Errada
A ressalva introduzida por "Contudo" impede interpretar a posição do autor como endosso irrestrito. A leitura romântica também é expressamente afastada: "Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura." Não há apresentação de escritores de índole romântica como comprovação da frase.
C
Certa
A expressão "Nesse ponto cabe ter cautela." marca a reação imediata do autor. Em seguida, "Como metáfora" delimita o alcance da aceitação, enquanto a advertência contra associar arte e loucura impede que a frase seja tomada como diagnóstico dos escritores. Assim, a alternativa C expressa a recusa de reduzir a literatura a sintoma de desajuste psíquico, sem atribuir ao autor uma negação de toda participação de fatores psíquicos na escrita.
D
Errada
A alternativa desloca o objeto da ressalva: o autor questiona a associação entre arte e loucura, não a aceitação social da arte. A generalização de que nenhuma arte que problematiza a vida é socialmente aceita não tem apoio no texto.
E
Errada
A alternativa inverte a orientação do texto. Os ares "messiânicos" integram as caracterizações que o autor recomenda evitar, e não uma proposta que ele defenda para a literatura.
Pegadinha da questão
Confundir a aceitação da utilidade metafórica com adesão literal à associação entre escrita e esquizofrenia, ou confundir a ressalva com rejeição completa da frase.
Dica para questões semelhantes
  • Examine a sequência posterior à citação: a reação imediata pode revelar cautela, adesão ou recusa.
  • Observe expressões delimitadoras como "Como metáfora": elas restringem o alcance da concordância.
  • Leia a ressalva introduzida por "Contudo" em conjunto com a aceitação anterior para identificar uma posição de relativização.
  • Diferencie caracterizações mencionadas para serem evitadas de propriedades efetivamente defendidas pelo autor.

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Comentários

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Tem que ter um pouco de esquizofrenia mesmo para entender esses textos que a FCC escolhe. Acertei, resposta letra C.

LETRA: C

O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade - quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo (OPOSIÇÃO), deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura.

A alternativa correta é:

C) relativiza-a de pronto, por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico.

✅ Por quê?

O autor cita a frase de E. L. Doctorow:

“Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”

Mas logo em seguida ele não aceita isso de forma literal. Pelo contrário, ele faz uma ressalva:

“Como metáfora, a coisa tem sua utilidade [...] Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura...”

Ou seja:

  • Ele reconhece valor como metáfora ✔️
  • Mas rejeita a ideia de que escrever seja realmente um distúrbio psíquico ❌

Isso é exatamente relativizar a afirmação.

❌ Por que as outras estão erradas?

A) recusa-a de todo

❌ Errada — ele não rejeita totalmente, pois admite valor metafórico.

B) referenda-a

❌ Errada — ele não concorda plenamente, pelo contrário, faz crítica.

D) julga-a equívoca... nenhuma arte é aceita socialmente

❌ Nada disso aparece no texto — invenção da alternativa.

E) considera-a oportuna... proposta messiânica

❌ O texto critica justamente essa visão “heroica” ou “messiânica” da arte.

A) recusa-a de todo, por julgá-la uma metáfora improcedente...: Incorreta. O autor não a recusa "de todo" (integralmente), pois ele mesmo assume que, "como metáfora, a coisa tem sua utilidade".

B) referenda-a, uma vez que ela se aplica exemplarmente ao caso dos escritores de índole romântica: Incorreta. O autor não referenda (valida) a frase sob a ótica romântica. Ao contrário, ele diz expressamente: "nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura".

C) relativiza-a de pronto, por não aceitar que se tome a arte literária como sintoma de desajuste psíquico: CORRETA. "De pronto" (imediatamente) ele pede cautela e limita o sentido da frase ao campo metafórico, rejeitando a associação direta entre arte e loucura (desajuste psíquico) para justificar o ofício.

D) julga-a equívoca, uma vez que nenhuma arte que problematiza a vida é aceita socialmente: Incorreta. O autor não discute se a arte que problematiza a vida é aceita ou não pela sociedade; esse argumento é inteiramente extrapolado do texto.

E) considera-a oportuna, por considerar que a arte literária deve ser aceita como uma proposta messiânica: Incorreta. O autor faz o movimento oposto: ele diz textualmente que se deve evitar associar a arte à loucura para dar ares "messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional".

C

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