Observe que no primeiro parágrafo a autora instiga o interlo...
Mesa Redonda: Cidadania na sociedade inclusiva
No ano passado, fiz um curso de marketing social com várias entidades de todo o Brasil. Cada entidade tinha que falar do seu trabalho e uma ONG muito conhecida, muito moderna de Salvador, descreveu assim o seu trabalho: "Na nossa ONG profissionalizamos todo e qualquer adolescente que lá chegue em busca de profissionalização. Pode ser rico, pobre, branco, negro, índio, mulher ou homem". Eu disse: "Que bárbaro! Então vocês também profissionalizam jovens com deficiência?". "Não, pelo amor de Deus, isso não, nunca pensamos nisso, nunca passou pela nossa cabeça!". Eles são maus, estão errados? Não. Simplesmente foram criados, como todos nós, achando que a deficiência fazia parte de uma quarta dimensão da vida. Quando você cresce e se profissionaliza, não importa que profissão você tenha, mesmo bem-intencionado, você percebe que não foi ensinado, nem treinado ou capacitado para se articular ética e politicamente com pessoas com deficiência. Assim, como profissionais, começamos a fazer besteiras por aí, não importa a profissão que tenhamos escolhido. Eu disse: "Você não está errado, você pode não querer profissionalizar pessoas com deficiência". Acho até que ele pode falar isso, mas deveria mudar o seu estatuto e o seu discurso. Não dissera que profissionalizavam todo jovem que os procurava?
Nessa mesma reunião, uma ONG do Rio de Janeiro, ligada a uma grande faculdade particular, falou: "A nossa ONG é especializada em educação, temos o maior acervo do Rio de Janeiro em livros sobre educação". Eu falei: "Que bom, então vocês também devem ter tudo sobre educação inclusiva, educação especial". Ela falou: "Não, isso não, só trabalhamos com educação". Eu disse: "Bom, você também tem o direito de querer que a sua ONG trabalhe com o que você chama de educação, mas não é o que nós chamamos, o que o mundo chama de educação. É preciso rever no seu estatuto o que a sua ONG está fazendo".
Isso é importante, triste e instigante porque mostra o quanto, ainda hoje, a caminho do terceiro milênio, a deficiência continua sendo uma questão da família e não conseguiu ser uma questão cultural ou social. Mas por que não conseguiu ser uma questão cultural ou social? Porque, infelizmente, ainda não é considerada uma questão humana. [...]
Tornei-me aos poucos uma jornalista especializada em temas que favoreçam a inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. Para minha surpresa, as pessoas acham que eu só penso nisso. Na verdade, sempre que se fala em ética, em direitos humanos, em cidadania, em bioética, em parceria, aliança e cumplicidade, falase de inclusão, de pessoas com deficiências. Mas a maioria das discussões a respeito dessas questões, no nosso país, fica superficial, não chega ao clímax, ao orgasmo, digamos assim, da reflexão. Por que não se vai às últimas consequências, por que não se põe de forma transversal a questão da inclusão das pessoas com deficiência nessas discussões?
[...]
De acordo com a Resolução 45/91 da ONU, todos os conceitos parecidos com inclusão se referem a quem é minoria. E aí nos voltamos às minorias clássicas, ligadas às questões sociais, ou então minorias que nem o são, como as mulheres, que ainda têm hoje uma conotação minoritária. É um conceito preocupado com quem está em minoria, daí acredito que se refere a todos, porque qualquer um de nós, no decorrer da vida, vai estar várias vezes numa situação de minoria, torcendo para não ser discriminado e muito feliz porque colaborou para a implantação de um mundo inclusivo, ou muito arrependido de não ter feito isso.
Inclusão social é uma expressão muito perigosa, porque o social no Brasil e em muitos países é construído não em cima da humanidade, não em cima de todos os homens, mas em cima de alguns homens. Quando falo de incluir, falo de incluir no reino animal, no ramo vertebrados, na classe mamíferos, no gênero homo, da sapiens espécie, a nossa. Incluir é nascer. Nascemos incluídos. O que acontece depois é que vai aos poucos estragando tudo. Tem terra, não tem onde morar. A criança cresce mais ou menos em dívida com essa questão. A deficiência é comemorada e falada na mídia em dias de festa, em dias de seminário. Como se não houvesse vagas no dia a dia da humanidade para esse tema. Como se não houvesse vagas para esse tema ser abordado todos os dias a cada minuto. Nada é mais humano do que a deficiência.
Cláudia Werneck Jornalista formada pela UFRJ, escritora especializada em temas que favoreçam a inclusão. Disponível em:
http://proex.pucminas.br/sociedadeinclusiva/anaispdf/claudia.pdf. Acesso em 12 maio 2017.
Gabarito comentado
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A questão apresentada requer uma interpretação de texto, especificamente sobre a diferença entre prática e discurso em relação à inclusão social, conforme destacado no primeiro parágrafo do texto fornecido.
Vamos analisar o contexto e as estratégias para responder corretamente:
Alternativa A - um hiato entre a práxis e o discurso: Esta é a resposta correta. A autora menciona que as ONGs professavam a inclusão de todos os jovens, mas na prática excluíam jovens com deficiência. Isso evidencia uma discrepância entre o que se diz (discurso) e o que realmente se faz (práxis).
Agora, vejamos por que as outras alternativas estão incorretas:
Alternativa B - uma prática abusiva de ignorar os deficientes: Essa alternativa não está de acordo com o texto, que não acusa as ONGs de abusividade, mas aponta para um desconhecimento ou desconsideração involuntária, não sendo uma prática propositalmente abusiva.
Alternativa C - uma relação positiva entre teoria e prática: O texto claramente mostra a contradição, não uma relação positiva, entre o que as ONGs dizem fazer e o que realmente fazem em relação à inclusão.
Alternativa D - uma generalização de que todos são educados para a profissionalização: O texto não sugere que há uma generalização nesse sentido, mas sim que há uma exclusão dos deficientes no processo.
Alternativa E - uma desarticulação ética por parte do interlocutor: O texto não concentra a crítica no interlocutor, mas sim na incongruência entre o discurso de inclusão e a prática de exclusão.
Para interpretar textos de forma eficiente, é importante:
- Identificar a tese principal e os argumentos utilizados.
- Distinguir entre discurso e prática, observando possíveis inconsistências.
- Procurar palavras-chave e frases que indiquem o tema central.
Este exercício é uma excelente oportunidade para aprimorar suas habilidades de leitura crítica!
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Comentários
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Para quem não sabia o que significava práxis igual a mim:
práxis - substantivo feminino
1. prática; ação concreta.
fil no aristotelismo, conjunto de atividades humanas autotélicas, cuja manifestação mais representativa é a política, e caracterizadas esp. por sua natureza concreta, em oposição à reflexão teórica.
2.parte do conhecimento voltada para as relações sociais e as reflexões políticas, econômicas e morais.
Origem ETIM gr. prâksis,eōs 'ação, conduta'
Gabarito letra a)
Gabarito A.
" mas deveria mudar o seu estatuto e o seu discurso. Não dissera que profissionalizavam todo jovem que os procurava?" (1 paragrafo, ultima linha)
GABARITO: A
Hiato no sentido figurado significa intervalo, espaço, ou seja, de acordo com o texto há um espaço, uma distância entre a práxis (conduta, prática) e o discurso.
"Na nossa ONG profissionalizamos todo e qualquer adolescente que lá chegue em busca de profissionalização. Pode ser rico, pobre, branco, negro, índio, mulher ou homem". Eu disse: "Que bárbaro! Então vocês também profissionalizam jovens com deficiência?". "Não, pelo amor de Deus, isso não, nunca pensamos nisso, nunca passou pela nossa cabeça!".
GABARITO A
um hiato entre a práxis e o discurso, o que quer dizer: uma contradição entre o que se fala e o que se faz.
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