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Q1719003 Português
ENTREVISTA COM ENI ORLANDI

     M. S. – Você tem apresentado uma distinção entre a formação e a capacitação no que tange à formação de professores. Nesse sentido, de que forma os pressupostos teóricos da Análise de Discurso podem contribuir para a proposição de uma política de formação para os profissionais de Letras, tanto em nível de graduação, passando pelas chamadas formações continuadas, ofertadas pelas Secretarias de Educação de estados e municípios, quanto no âmbito da pós-graduação? 

     E. O. – A distinção que faço entre formação e capacitação não significa como está significada a palavra formação em “formação continuada”. Ao contrário, é uma noção que procurei formular para abrigar a possibilidade de se pensar em uma prática pedagógica de construção real de conhecimento, e não presa ao imaginário escolar já significado antes mesmo que se estabeleçam relações concretas com os alunos. A distinção básica é a que estabeleço entre a relação do ensino com a informação – capacitação – e com o conhecimento, com o saber – formação. Na capacitação, consumo e cidadania se conjugam. 
 
     Na conjuntura histórica atual, a alfabetização e o desenvolvimento se declinam, então, em “educação e mercado”, em que o mercado exige a qualificação do trabalho, a qualificação do trabalhador: um país educado. Isto significa um país rico em que os cidadãos “educados” são capacitados para o trabalho e circulam como consumidores de um mercado de trabalho qualificado; neste caso, o da capacitação, o denominador comum é o trabalho, e não o conhecimento. Basta a informação, o treinamento. O mercado funciona como uma premissa indefinida para se falar em “sustentabilidade”

     Esta palavrinha traz em seu efeito de memória a de desenvolvimento, que é o que precisamos, segundo o discurso dominante em uma sociedade capitalista, sobretudo em países ditos pobres. A capacitação é a palavra presente constantemente na mídia, na fala de empresários, governantes e... na escola. De nosso ponto de vista, este funcionamento discursivo silencia a força da reivindicação social presente, no entanto, na palavra formação. Pensando politicamente, podemos dizer que a formação, e não a capacitação, pode produzir um aluno “não alienado”. Retomo, aqui, o conceito de K. Marx (1844), segundo o qual a alienação desenvolve-se quando o indivíduo não consegue discernir e reconhecer o conteúdo e o efeito de sua ação interventiva nas formas sociais.

     A análise de discurso pode prover elementos para que a formação, e não a capacitação, seja incentivada como forma de relação com o conhecimento. Já porque suas reflexões juntam sujeito, língua, educação e formação social. Em minhas reflexões, uno a isto uma teorização do sujeito em que se tem os seus modos de individuação, produzidos pela articulação simbólico-política do Estado, através de instituições e discursos. Aí incluo, nesta presente reflexão, a escola e os discursos do conhecimento.

     Consideramos que a educação, e, em particular, o ensino da língua, como parte do que tenho trabalhado como a individuação do sujeito, neste caso, sendo a instituição a escola, poderia, se bem praticado como processo formador do indivíduo na sua relação com o social e o trabalho, dar condições para que este sujeito “soubesse” que sabe a língua e soubesse “ler e escrever”, de forma a, em sua compreensão, ser capaz de dimensionar o efeito de sua intervenção nas formas sociais, com todas as consequências sociais e históricas que isto implica. Em uma palavra, se desalienasse. O que a capacitação não faz, pois o torna apenas um indivíduo bem treinado e, logo, mais produtivo. Isto não o qualifica em seu conhecimento, o que, com a formação, se dá e produz o efeito de tornar esse sujeito mais independente, deixando de ser só mais um instrumento na feitura de um “país rico”. Ele estaria formado para dar mais um passo na direção de não só formular como reformular e ressignificar sua relação com a língua institucionalizada, a da escola, mas também com a sociedade.

     Ao invés de ser apenas um autômato de uma empresa (com a capacitação), poderia ser um sujeito em posição de transformar seu próprio conhecimento, compreender suas condições de existência na sociedade e resistir ao que o nega enquanto sujeito social e histórico. Tudo isto, se pensamos na formação - desde a educação básica, como o ensino superior – leva-nos a dizer que há modos de formar sujeitos preparados para descobertas e para inovações. Sujeitos bem formados que podem “pensar por si mesmos”, tocando o real da língua em seu funcionamento e o da história, no confronto com o imaginário que o determina.

ORLANDI, EniPulccinelli. Entrevista com EniOrlandi. [Entrevista
concedida a Maristela Cury Sarian] Pensares em Revista, São Gonçalo
– RJ, n. 17, p. 8-17, 2020. (Fragmento).
Considerando o texto acima, pode-se afirmar que seu objetivo principal consiste em
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto – Identificação do objetivo principal. Trata-se de habilidade fundamental em concursos para o cargo de Professor de Língua Portuguesa, exigindo a capacidade de distinguir ideias centrais das secundárias e perceber o foco argumentativo do texto, como defendido por Koch e Elias em Ler e compreender.

Justificativa da alternativa correta (D):
“Considerar as contribuições teóricas da Análise de Discurso para a formação dos profissionais de Letras.”

O texto traz reflexões sobre formação versus capacitação, mas o pano de fundo é justamente a proposta de repensar a formação à luz dos pressupostos da Análise de Discurso. Veja que o cerne da argumentação gira em torno de como essa vertente teórica proporciona uma abordagem mais profunda, integrando aspectos sociais, históricos e linguísticos, essenciais à formação do docente de Letras. A autora detalha que, ao contrário da capacitação voltada ao treinamento técnico, a formação impulsionada pela Análise de Discurso permite a constituição de sujeitos críticos e conscientes de seu papel social.

Assim, segundo a regra de interpretação textual normativa: a alternativa que melhor reflete o objetivo macro, abarcando o argumento central do texto, deve ser escolhida como correta.

Análise das alternativas incorretas:

A) Esclarecer a posição da autora com relação ao ensino de língua portuguesa.
Limita o objetivo a uma opinião sobre o ensino de Língua Portuguesa, mas o escopo do texto é mais abrangente, envolvendo o conceito da formação docente como um todo, não apenas do ensino da língua.

B) Tecer considerações acerca da ressignificação da língua institucionalizada.
A ressignificação é tratada, porém como elemento secundário dentro do contexto da formação, não sendo o objetivo principal.

C) Mostrar a diferença entre capacitação e formação no contexto acadêmico.
Embora a autora elabore tal diferença, o texto enfatiza que essa discussão é mediada pelos aportes da Análise de Discurso, indo além do simples comparativo.

E) Apresentar o conceito de alienação nas formulações teóricas marxistas.
Alienação é citada, mas serve como suporte à discussão maior sobre formação, não como objetivo central.

Estratégia para provas: Fique atento ao termo-chave do comando da questão (“objetivo principal”) e à abrangência temática de cada alternativa. Foque os pontos mais recorrentes e desenvolvidos no texto. Essa tática evita confusões causadas por alternativas corretas apenas em parte ou focadas em aspectos secundários.

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