“Não o escreveu, nem o leu em voz alta no Theatro Municipal ...

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Q2694579 Português

Leia o texto a seguir para responder as questões de 01 a 08.


Por que Tarsila do Amaral inspira?

Nascida no final do século XIX, foi criada para ser esposa e mãe. Ousou fazer diferente. Ousou escolher o lugar que queria ocupar no mundo, agiu para isso.


O MASP inaugurou em abril deste ano a mais ampla exposição de Tarsila do Amaral já realizada na história. A mais numerosa foi a da Pinacoteca de São Paulo, em 2008. Depois outras duas exposições potentes, realizadas pelo Art Institute of Chicago e pelo MoMA de Nova York, têm colocado a obra da artista brasileira em um novo patamar de reconhecimento global.

Como sua sobrinha-neta homônima, conheço e contemplo a obra de Tarsila desde muito pequena. Ao entrar na exposição montada com maestria pelo MASP, lembro-me da casa dela e das paredes das casas de meus familiares, que já foram decoradas com as peças, hoje valorizadas internacionalmente. Tarsila adorava presentear os parentes com seus trabalhos.

Mas muito além de rever estas cores e formas tão peculiares, além de rememorar tantas histórias íntimas envolvendo minha tia-avó, essas grandes exposições (e os olhares que tais mostras suscitam em torno da obra) me fazem rever a dimensão desta mulher no mundo.

É uma obviedade dizer que dos anos 20 para cá muita coisa mudou. Olhar a criação de qualquer artista sob as perspectivas de comportamento atualizadas para 2019 poderia revelar uma obra datada.

Tenho feito isso com Tarsila. E ao rever sua obra, entendo cada vez mais seu vanguardismo feito em voz baixa. Digo isso porque Tarsila era discreta. A partir da mais icônica de suas obras, Abaporu, Tarsila inspirou o manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. Não o escreveu, nem o leu em voz alta no Theatro Municipal de São Paulo. Inspirou-o.

Em uma tela em branco, Tarsila escolheu pintar com cores que seus professores diziam “feias”, de mau gosto. Cores fortes, cheias de luz, do jeito que ela enxergava nas paisagens do interior do Brasil, seu habitat natural, as cores caipiras.

Em uma época na qual a pintura retratava majoritariamente personagens brancos, Tarsila criou “A Negra”, exposta no MoMA e agora no MASP com a devida importância afetiva que a personagem ali representada tinha para a artista.

Ao longo da exposição no MoMA, conversei com diversos frequentadores da mostra e não posso esquecer um funcionário do museu, senhor negro americano, que sorriu ao dizer que a obra que ele mais tinha gostado era “A Negra”, porque se sentiu representado nela. Quantos personagens negros já ocuparam as paredes do MoMA?

Tarsila era filha de aristocratas. Nascida no final do século XIX, foi criada para ser esposa e mãe. Ousou fazer diferente. Ousou escolher o lugar que queria ocupar no mundo, agiu para isso. Ousou escolher as cores caipiras, a despeito dos grandes mestres com quem estudou.

Tarsila ousou dizer publicamente que queria ser a pintora do Brasil. Não teve medo de dizer isso em Paris, a cidade onde passou grande parte dos anos 20, que era a capital do mundo artístico na época.

A despeito de todos os papéis pensados para uma mulher filha de fazendeiros nascida em 1886 na cidade de Capivari, interior de São Paulo, a exposição “Tarsila Popular” em cartaz no MASP mostra que ela conquistou o lugar que desejou para sua existência. Por tudo isso, Tarsila inspira.


(Tarsilinha do Amaral é advogada, sobrinhaneta da artista e representante do espólio de Tarsila do Amaral. Texto adaptado. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/16/ opinion/1555368121_160698.html)

“Não o escreveu, nem o leu em voz alta no Theatro Municipal de São Paulo. Inspirou-o.”


Releia o 5º parágrafo do texto para identificar o termo ao qual os pronomes oblíquos do trecho acima se referem e assinale a alternativa correta.

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Tema central da questão: Morfologia – Pronomes oblíquos átonos e coesão referencial (anáfora). Trata-se de uma questão clássica de interpretação de texto e gramática normativa, exigindo identificação de quem ou do que um pronome retoma no texto.

Regra Essencial: Pela norma-padrão, pronomes oblíquos átonos como “o” funcionam como complemento verbal e retomam um termo masculino singular já citado (Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa). Trata-se de coerência e coesão referencial: o pronome serve para evitar repetições, referenciando uma ideia textual já apresentada (Celso Cunha & Lindley Cintra).

Justificativa para a alternativa correta – D) manifesto Antropófago:

No trecho “Não o escreveu, nem o leu em voz alta no Theatro Municipal de São Paulo. Inspirou-o.”, o pronome “o” faz referência ao manifesto Antropófago, que aparece logo antes: “A partir da mais icônica de suas obras, Abaporu, Tarsila inspirou o manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.”
Assim, a opção D está correta porque o pronome “o” retoma imediatamente o termo “manifesto Antropófago” (relacionamento anafórico de coesão textual).

Análise crítica das alternativas incorretas:

  • A) Abaporu: “Abaporu” é citado anteriormente, mas o texto deixa claro: foi o Abaporu que inspirou o manifesto Antropófago, não que foi escrito ou lido por Tarsila. Logo, o pronome não retoma essa obra.
  • B) Oswald de Andrade: O nome refere-se ao autor do manifesto, mas “o” jamais retomaria uma pessoa neste contexto. Pronomes oblíquos normalmente substituem objetos (não sujeitos).
  • C) sua obra: Termo genérico e feminino, não corresponde ao masculino singular do pronome “o”. Além disso, no contexto, “escrever” ou “ler” refere-se ao manifesto – não à obra de Tarsila como um todo.

Estratégia para a prova: Sempre que identificar pronomes oblíquos átonos, volte ao trecho imediatamente anterior em busca do substantivo masculino singular mais próximo, evitando cair em pegadinhas de sentido ou gênero. Atente ao contexto: pronomes de terceira pessoa apontam para termos já citados (anáfora).

Resumo: O raciocínio correto, recomendado pelas principais gramáticas e manuais de redação oficiais, exige identificar para que termo do texto o pronome “o” faz referência neste contexto de coesão.
Gabarito: D) manifesto Antropófago.

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