No 2º§ do conto, o narrador descreve a reação do patriarca a...

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Q4326515 Português
A sopa

    Subiu lentamente a escada, arrastando os pés. Estacou para respirar apenas uma vez, no meio dos trinta degraus: ainda era um homem. Entrou na cozinha e, sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa. Ela encheu o prato de sopa, colocou-o diante do marido.
    Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
    – Aonde é que vai?
    O filho abriu a torneira do banheiro:
    – Fazer a barba.
    – Hora da janta. Vem comer.
    Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
    – Não quero jantar. Sem fome.
    O homem suspendeu a colher:
    – Não quer jantar, mas vem para a mesa. 
    Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos lábios; grossos, tragava-o com delícia. O filho desenhava com o garfo na toalha de flores estampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo.
    – Vou dar uma volta.
    O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.
    – Saiu agora do quarto, filho de barão! Mas eu... Quando me deitar de dia na cama! É para morrer!
    A mão do filho abandonou o garfo e não se mexeu.
    – Volta cedo, não é?
    A voz cansada da mãe, ainda de costas para a mesa. Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho? O homem esvaziou o prato e, descansando a colher, examinou as mãos enrugadas.
    – Estas mãos – sacudidas de ligeiro tremor – de um velho!
    A mulher apanhou o prato, encheu-o até a beirada. O marido retorceu as pontas úmidas do bigode:
    – Você não come?
    O filho contornava com o garfo as pétalas na toalha.
    – Não estou com vontade.
    – Depois o senhor vai para o quarto.
    Cheirava a colher e sorvia a sopa, estalando a língua. O filho ergueu-se da mesa.
    – O senhor fica sentado. Não tem pão nesta casa?
    A mulher trouxe o pão. Ele não o cortava: agarrava-o inteiro na mão e mordia várias vezes; em seguida partia-o em pedaços, alinhados diante do prato, atacando um por um, entre as colheradas.
    – Volta cedo, não é, meu filho?
    De novo a mãe, nunca aprenderia.
    – Agora não vou mais. O pai dizia a última palavra:
    – Uma vergonha! O chefe tem de jantar sozinho. O filho preguiçoso... até para comer. A mulher – com seus brados retiniam os talheres – tem o estômago delicado.
    Não se mexeu, curvada sobre o fogão.
    – Olhe para mim quando falo com a senhora!
    Ela se virou, a enxugar as mãos na saia.
    – Depois de velha, melindrosa. Não pode comer com o rei da casa, que lhe sustenta o filho e lhe dá o dinheiro?
    – Sabe por que não sento.
    Os dois a olharam com espanto, nunca discutiu as ordens do marido.
    – Sei não, dona princesa. Pois me conte.
    Ele pedia, a colher no ar:
    – Perdeu a coragem, que não fala?
    Outra vez a mulher deu-lhe as costas.
– Só nojo de você.
    Ele começou a soprar, manchava de borrifos a toalha.
    – O quê? O quê? Repita, mulher.
    A dona abriu o fogão, espertou as brasas, encheu-o de lenha:
    – Nada espero da vida. Mas não posso te ver comer. Sei que é triste para a mulher ter nojo do marido. Você chupa a colher se fosse tua última sopa. Come o pão como se eu fosse te roubar. Não sei o que fiz a Deus para esse castigo mais desgraçado. Fui boa mulher, ainda que tenha nojo. Lavo tua roupa, deito na tua cama, cozinho tua sopa. Faço isso até morrer. Me peça o que quiser. Não que me sente a essa mesa com você e tua sopa.
    O filho abandonou a cozinha e desceu a escada. Os dois ouviram bater a porta da rua.
    O marido encarou primeira vez a mulher. Baixou os olhos, cabelos de gordura boiavam no caldo frio. Erguendo um lado do prato, acabou o resto de sopa e lambeu a colher.

(TREVISAN, D. Novelas Nada Exemplares. Rio de Janeiro: Record, 2020. Adaptado) 
No 2º§ do conto, o narrador descreve a reação do patriarca ao se acomodar para a refeição na cozinha: “O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.”. Considerando o contexto da cena e a relação do personagem com o alimento, o vocábulo “embevecido” assume o sentido de:
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A palavra deve ser interpretada pela relação imediata que o enunciado estabelece com os vapores do alimento, não pelo conflito familiar do conto: “O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.” Essa delimitação contextual sustenta a alternativa A.

Tema central: Sentido contextual de embevecido
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A traduz o estado de alguém encantado e absorvido por uma sensação prazerosa. O personagem aprecia os vapores da sopa e a ingere “com delícia”; essa satisfação sensorial sustenta a equivalência entre “embevecido” e “Fascínio profundo”.
B
Errada
“Afobação extrema” indica pressa ou agitação, enquanto o trecho descreve absorção prazerosa diante dos vapores da sopa. A fome e a intensidade do prazer alimentar não demonstram, por si, afobação.
C
Errada
A hostilidade aparece nas relações do personagem com os familiares, mas “embevecido” caracteriza sua reação ao alimento. A sopa o atrai e é consumida “com delícia”, o que exclui o sentido de “Hostilidade latente” nesse trecho.
D
Errada
“Perplexidade repentina” pressupõe surpresa ou desconcerto, estados não indicados na reação à sopa. O movimento das pálpebras, lido junto da atração pelos vapores e do prazer ao comer, expressa encantamento, não espanto.
Pegadinha da questão
Transferir a hostilidade do pai nas relações familiares para sua reação à sopa, ou confundir a avidez alimentar com afobação. A palavra descreve especificamente seu prazer diante do alimento.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique a que elemento a palavra se refere: aqui, aos vapores da sopa, e não à convivência familiar.
  • Confirme o sentido pela continuidade da descrição: “tragava-o com delícia” reforça o valor prazeroso de “embevecido”.
  • Não interprete um gesto isoladamente: bater as pálpebras deve ser lido em conjunto com a descrição da reação ao alimento.

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A palavra deve ser interpretada pela relação imediata que o enunciado estabelece com os vapores do alimento, não pelo conflito familiar do conto: “O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.” Essa delimitação contextual sustenta a alternativa A.

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