Tendo em vista a estrutura textual apresentada, pode-se afir...
Texto para responder às questões 09 e 10.
Se eu fosse pintor...
Se eu fosse pintor começaria a delinear este primeiro plano de trepadeiras entrelaçadas, com pequenos jasmins e grandes campânulas roxas, por onde flutua uma borboleta cor de marfim, com um pouco de ouro nas pontas das asas.
Mas logo depois, entre o primeiro plano e a casa fechada, há pombos de cintilante alvura, e pássaros azuis tão rápidos e certeiros que seria impossível deixar de fixá-los, para dar alegria aos olhos dos que jamais ou viram ou verão.
Mas o quintal da casa abandonada ostenta uma delicada mangueira, ainda como moles folhas de cor de bronze sobre a cerrada fronde sombria, uma delicada mangueira repleta de pequenos frutos, de um verde tenro, que se destacam do verde-escuro como se estivessem ali apenas para tornar a árvore um ornamento vivo, entre os muros brancos, os pisos vermelhos, o jogo das escadas e dos telhados em redor.
E que faria eu, pintor, dos inúmeros pardais que pousam nesses muros e nesses telhados, e aí conversam, namoram-se, amam-se, e dizem adeus, cada um com seu destino, entre a floresta e os jardins, o vento e a névoa?
Mas por detrás estão as velhas casas, pequenas e tortas, pintadas de cores vivas, como desenhos infantis, com seus varais carregados de toalhas de mesa, saias floridas, panos vermelhos e amarelos, combinados harmoniosamente pela lavadeira que ali os colocou. Se eu fosse pintor, como poderia perder esse arranjo, tão simples e natural, e ao mesmo tempo de tão admirável efeito? [...]
Sinto, porém, que tudo isso por onde vão meus olhos, ao subirem do vale à montanha, possui uma riqueza invisível, que a distância abafa e desfaz: por detrás dessas paredes, desses muros, dentro dessas casas pobres e desses castelinhos de brinquedo, há criaturas que falam, discutem, entendem-se e não se entendem, amam, odeiam, desejam, acordam todos os dias com mil perguntas e não sei se chegam à noite com alguma resposta.
Se eu fosse pintor, gostaria de pintar esse último plano, esse último recesso da paisagem. Mas houve jamais algum pintor que pudesse fixar esse móvel oceano, inquieto, incerto, constantemente variável que é o pensamento humano?
(MEIRELES, Cecília. Ilusões do mundo. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976. Adaptado.)
Tendo em vista a estrutura textual apresentada, pode-se afirmar acerca de elementos como: variedade de cores e tons, as conversas dos pássaros, as “folhas ainda moles” das mangueiras (...) que
Gabarito comentado
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Gabarito Comentado – Interpretação: Vocabulário Sensorial e Descrição Literária
Tema central: Esta questão exige interpretação do texto, especialmente a identificação do predomínio da descrição literária aliada ao uso de vocabulário sensorial. Trata-se de reconhecer como as palavras evocam percepções sensoriais (visuais, auditivas, táteis etc.) para criar imagens mentais no leitor.
Justificativa da alternativa correta (B):
O texto de Cecília Meireles é um claro exemplo de descrição literária, dominado por palavras que remetem aos sentidos. Descrições como “trepadeiras entrelaçadas”, “pequenos jasmins”, “pássaros azuis”, “moles folhas de cor de bronze”, entre outras expressões, acionam nossos sentidos da visão, audição e tato. Celso Cunha e Lindley Cintra apontam que a descrição literária caracteriza-se pelo uso de adjetivos, imagens e recursos estilísticos para tornar a cena vívida. Portanto, a alternativa B está correta ao apontar que tais elementos constituem um vocabulário sensorial com grande relevância no processo descritivo do texto.
Análise das alternativas incorretas:
A) Fala em “saudosismo existencial” e “insatisfação com o momento presente”. O texto, porém, valoriza a observação do cenário e o desejo artístico de representá-lo, sem sugerir insatisfação ou nostalgia.
C) Aponta “exagero intencional” e a ideia de que os detalhes sobrepõem o tema geral, mas o detalhamento faz parte da riqueza da descrição, sem sobreposição de importância, apenas tornando a cena mais real e sensível.
D) Menciona que a finalidade não é “apenas descritiva” ao tratar de “indagações existenciais”, mas o texto é preponderantemente descritivo, e as reflexões surgem apenas ao final, não sendo o foco principal.
Dica de prova: Textos descritivos costumam privilegiar imagens sensoriais. Quando a questão aborda “cores, sons, detalhes”, desconfie da função predominantemente descritiva e do emprego do vocabulário sensorial.
Regra-chave: Na descrição literária predomina a função poética e sensorial da linguagem, conforme orientam gramáticas de Bechara e Cunha & Cintra.
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Comentários
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Explicação:
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A alternativa B) constituiem um vocabulário sensorial cuja função é de grande relevância no processo descritivo que predomina no texto é a correta, porque o trecho apresenta uma descrição rica em elementos visuais, táteis e auditivos, compondo um cenário altamente sensorial. A autora descreve a paisagem como se estivesse pintando um quadro, com riqueza de cores (“campânulas roxas”, “borboleta cor de marfim”, “pássaros azuis”), formas (“trepadeiras entrelaçadas”, “velhas casas pequenas e tortas”) e movimentos (“pássaros azuis tão rápidos e certeiros”, “pardais que... dizem adeus”).
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Esse uso de vocabulário sensorial — que estimula os sentidos da visão, audição e até mesmo o tato (ex: “folhas moles”) — reforça a função descritiva predominante do texto. A autora constrói uma pintura verbal, e o uso desses detalhes é essencial para que o leitor consiga “visualizar” o cenário.
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Referência:
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MEIRELES, Cecília. Ilusões do mundo. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976.
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Sobre a estrutura textual, esse tipo de linguagem descritiva, rica em detalhes sensoriais, é abordada em manuais de gêneros textuais. Um exemplo de referência teórica que embasa essa análise é:
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CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português: Linguagens. São Paulo: Atual.
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Eles destacam que textos descritivos têm como objetivo principal criar uma imagem mental no leitor, por meio de elementos como cores, formas, cheiros, sons e sensações, o que está diretamente ligado ao que ocorre no texto de Cecília Meireles.
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