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Q3059374 Português
Leia, com atenção, o texto e, a seguir, responda à questão.


Qual a altura do céu?

Bruna Lauer

      Uma mulher que, no auge dos seus 30 e poucos, carrega em seu currículo uma página no Instagram de sucesso, um podcast de sucesso, um livro de sucesso, inspira milhares de pessoas e, ainda, confessa querer mais. Dizem que o céu é o limite e fico me perguntando qual seria a altura do céu de cada um. O dela me parece ser bem alto e, inclusive, faz sentido.

      Com tanta vida pela frente, é preciso haver espaço para crescimento e conquistas que a motivem a ir além. Mas escutando uma entrevista com a empreendedora, ela confessa ter vivido uma recente crise de pânico devido à sobrecarga de sua agenda de trabalho, além de lidar com uma gastrite crônica. E fico imaginando se não deveria ser o corpo esse tal limite.

      Será que é a hora de discutirmos até onde vai este céu? Estamos cercados de histórias de pessoas que “deram certo”, muitas vezes assistindo a seus voos acrobáticos, desconhecendo as horas de treino e, o pior, o que de mais acontece em terra firme. Como escritora e comunicadora, via naquela carreira cheia de conquistas uma inspiração.

      Queria que a minha voz também chegasse assim, tão longe. Mas, ao ter acesso aos bastidores, após eu mesma ter passado por uma crise de ansiedade, uma infecção hospitalar e um câncer de mama, não senti vontade de experimentar suas asas.

      Acreditamos que sucesso seja este voo alto e bonito que olhamos com os dois pés no chão, apenas imaginando como seria estar ali. Mas hoje, ao pensar nesse tema, quem me vem à mente é meu amigo Carlinhos. Você provavelmente nunca ouviu falar dele, um morador da zona rural de Monteiro Lobato, que trabalha na roça e vive com sua esposa e filho no local em que nasceu.

      Nunca saiu do chão e, mesmo assim, é nele que penso. Me sinto inspirada por sua forma íntegra de agir e viver em harmonia com a natureza, por sua sabedoria aprendida com os mais velhos e sua generosidade em nos ensinar. Carlinhos diz não precisar de mais nada, pois sabe que já tem o bem mais caro: liberdade. Claro que sua vida também não é perfeita, inclusive porque apenas vidas imperfeitas podem ser reais e possíveis de serem sustentadas por anos.

      Ainda assim, se precisasse escolher, preferiria seu par de asas quebrado. Quantos exemplos de uma vida equilibrada e, em certa medida, feliz, estão caminhando anonimamente pelas ruas do seu bairro e você nunca os notou? Pessoas que poderiam nos inspirar, não pela altura de suas conquistas, mas pelo resultado de todos os anos vividos. Histórias desconhecidas que, exatamente pela falta de algo para exibir, sejam plenas na mesma medida em que pareçam desinteressantes para os nossos olhos que se viciaram em olhar para o alto, buscando voos ornamentais sem parar.

      Me lembro de uma citação de Clarice Lispector, de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (Rocco), que diz “De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário. E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário”. Refletindo sobre isso, o céu do Carlinhos pode parecer baixo para muitos. Fico me perguntando se este céu bem baixinho não seja exatamente a melhor forma de estar mais perto do que é divino.

Disponível em: https://vidasimples.co/colunista/. Acesso em: 22 maio 2024. 
Analise os itens a seguir, tendo em vista os recursos usados na construção do texto.

I - Citação direta.
II - Discurso indireto.
III - Exemplificação.
IV - Conotatividade.
V - Subjetividade.

Estão CORRETOS os itens 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito comentado: Alternativa E

Tema central: A questão explora reconhecimento e análise de recursos linguísticos e estilísticos em um texto dissertativo-reflexivo, focando em interpretação, semântica e funções da linguagem — competências essenciais para provas discursivas ou objetivas em concursos.

Justificativas para a alternativa correta:

O texto utiliza os cinco recursos analisados. Veja a aplicação de cada um à luz da norma-padrão:

I - Citação direta: A autora reproduz literalmente uma passagem de Clarice Lispector, entre aspas. Citação direta, por definição, é a transcrição exata das palavras de outro autor, respeitando a integridade do discurso original (vide Bechara, “Moderna Gramática Portuguesa”).

II - Discurso indireto: Ocorrências no texto em que a autora relata falas ao modo da paráfrase, sem utilizar as palavras exatas dos personagens (“ela confessa querer mais”, “Carlinhos diz não precisar de mais nada”). Aqui, o discurso de terceiros é incorporado na fala da autora, introduzido por verbos dicendi, em conformidade com a norma (Cunha & Cintra, “Nova Gramática”).

III - Exemplificação: Diversos exemplos concretos (mulher do Instagram, Carlinhos, experiências pessoais) são trazidos para ilustrar ideias abstratas sobre sucesso e realizações — recurso de argumentação citado em gramáticas e manuais oficiais.

IV - Conotatividade: Muitos termos são usados em sentido figurado (“o céu é o limite”, “asas quebradas”), enriquecendo o texto de valor simbólico e não apenas literal (Azeredo, “Gramática Houaiss”).

V - Subjetividade: O texto reflete opiniões pessoais, sentimentos, vivências e avaliações da autora (“sinto-me inspirada”, “queria que minha voz...”) — característica típica da função emotiva da linguagem (Mattoso Câmara Jr.).

Análise das alternativas incorretas: Todas as opções excluem pelo menos um dos cinco elementos presentes no texto, contrariando as definições normatizadas e a análise atenta do trecho. O candidato deve sempre confrontar cada elemento com passagens concretas do texto, evitando julgamentos apressados.

Dica de prova: Muitos erram por não checarem cada termo técnico no texto. Preste atenção em palavras denotativas, marcas de subjetividade e, principalmente, nas formas como discursos e citações são introduzidos.

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