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Q3104949 Português
Texto II

   Um senhor que conheci fez-se uma celebridade em astronomia, com auxílio dos saraus que lhe eram oferecidos pelos amigos (...). E tudo isso com mais uns amigos dedicados a lhe oferecer bailes, por ocasião das suas portentosas descobertas nos céus ignotos, levaram o governo da Bruzundanga a nomeá-lo diretor (...).

   Para obviar tais inconvenientes, houve alguém que teve a ideia de “canalizar”, de “disciplinar” o entusiasmo do povo bruzundanguense, entusiasmo tão necessário às manifestações que lá há constantemente, e tão indispensáveis são ao fabrico de grandes homens que dirijam os destinos da grande e formosa República (...).

Lima Barreto. Os bruzundangas. Brasília: Editora Universidade de Brasília, Coleção Biblioteca Básica Brasileira, 2023, p. 106 (com adaptações).



No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto II, julgue (ou E) o item seguinte.


No segmento “nos céus ignotos” (segundo período do primeiro parágrafo), para expressar a natureza desconhecida do firmamento, o narrador atribui aos “céus” uma qualidade intrinsecamente humana.


Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E (errado)

Tema central: Interpretação de texto e figuras de linguagem, em especial a personificação (prosopopeia).

No trecho citado — “nos céus ignotos” — o adjetivo “ignoto” significa simplesmente “desconhecido”, “ignorados”, “não explorados”. É uma característica real, possível de ser atribuída a objetos inanimados, espaços, fenômenos ou lugares, e, portanto, não envolve qualidade exclusivamente humana.

Pela norma-padrão, a personificação ocorre quando se atribuem qualidades, sentimentos ou ações exclusivamente humanas a objetos, fenômenos ou seres irracionais. Exemplo clássico: “O sol sorriu para mim.” Aqui, “sorrir” é atributo só de humanos, logo, há personificação.

No caso de “céus ignotos”, atribui-se apenas o desconhecimento aos “céus”, qualidade que pode ser aplicada tanto a objetos animados quanto inanimados, sem qualquer traço de humanidade. Não há indicação de sentimentos, ações, postura ou raciocínio próprios de seres humanos. Logo, não se verifica personificação no segmento em análise, bastando consultar gramáticas de referência como Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo).

Análise da alternativa:
C) Errada: Só haveria personificação se “céus” fossem dotados de qualidade tipicamente humana (por exemplo: “os céus velam pelos homens”, “o céu castiga os ímpios”). A qualidade de “ser desconhecido” não é restrita a seres humanos.
E) Certa: Corretamente indica que não há atribuição de qualidade humana a “céus”, apenas classificação como desconhecidos.

Estratégia de prova: Atenção para palavras como “intrinsecamente humana”: basta lembrar que não se trata apenas de adjetivos — mas de aqueles exclusivos de humanos (como sentir, pensar, sofrer), segundo a tradição gramatical.

Ao enfrentar itens sobre figuras de linguagem, sempre se pergunte: o atributo que aparece só pode mesmo ser atribuído a humanos? Se não, descarte a personificação.

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Comentários

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IGNOTO: DESCONHECIDO, AQUILO QUE NÃO SE CONHECE

GABARITO: ALTERNATIVA ERRADA

No segmento "nos céus ignotos", o termo "ignotos" significa "desconhecidos" e não implica a atribuição de uma qualidade humana aos céus. A expressão simplesmente descreve o firmamento como desconhecido ou inexplorado, sem a utilização de recursos estilísticos que confeririam características humanas, como a personificação.

ERRADO. 

ignotos

Ignotos é o plural de ignoto. O mesmo que: camuflados, desconhecidos, ignorados, incógnitos, indeterminados, obscuros, ocultos.

Errado

No segmento "nos céus ignotos", o narrador utiliza o adjetivo "ignotos" para qualificar os céus, referindo-se à natureza desconhecida ou não explorada do firmamento. No entanto, "ignotos" não atribui uma qualidade intrinsecamente humana aos céus; em vez disso, o termo descreve algo que é desconhecido ou não reconhecido, sem implicar em características humanas. A palavra "ignotos" é uma forma de destacar a extensão do desconhecido nas descobertas astronômicas, não de personificar ou humanizar o céu.

Ignoto é aquilo que não se conhece, portanto não se aplica somente ao seres humanos.

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