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Q3104945 Português
Texto I


     (...) as nações latinas do Novo Mundo não se podem queixar de deslembradas. Cada incidente, ainda sem grande relevo, encontra repercussão na imprensa europeia. Não aparecem, é verdade, nenhuns desses longos estudos, circunstanciados e sábios, onde os mestres em assuntos internacionais dizem o que sabem sobre a história política, social e econômica do país de que se ocupam, para daí deduzirem os seus juízos. Não; como de costume, sempre que se trata das repúblicas latino-americanas, os doutores e publicistas da política mundial se limitam a lavrar sentenças — invariáveis e condenatórias. Como variantes dessas sentenças, eles se limitam a ditar, de tempos em tempos, uns tantos conselhos axiomáticos.

Manoel Bomfim. América Latina: males de origem. Brasília: Editora Universidade de Brasília, p. 24 (com adaptações).

Em relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto I, julgue (ou E) o item a seguir. 


Na construção argumentativa do texto, o autor faz uma pausa retórica mediante o emprego do “Não” (quarto período), para relativizar sua oposição ao conteúdo do período imediatamente anterior, e repete, nos dois últimos períodos, a expressão “se limitam” com o propósito de reforçar sua crítica à visão eurocêntrica, por ele considerada superficial e pretensamente superior. 


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Assunto central: Interpretação de texto — análise da construção argumentativa e uso de recursos linguísticos como pausa retórica e repetição para crítica.

Análise da assertiva: O item afirma que o autor faz uma pausa retórica com o “Não” para relativizar sua oposição ao período anterior, e repete “se limitam” para reforçar sua crítica à visão eurocêntrica, considerada superficial e pretensamente superior.

Justificativa (Gabarito: E – Errado)

Segundo a interpretação criteriosa do texto, o “Não” não serve para relativizar sua oposição, mas sim para reforçá-la de modo categórico. O autor emprega o “Não;” de maneira inequívoca e enfática para introduzir o contraste direto entre as expectativas em relação ao tratamento das repúblicas latino-americanas e a real postura dos estudiosos europeus — ou seja, marca oposição absoluta (e não relativização).

Além disso, embora a repetição da expressão “se limitam” destaque a crítica à superficialidade dos juízos europeus, não há menção explícita no texto a qualquer pretensa superioridade dos europeus, apenas à invariabilidade, condenação e limitação do julgamento proferido. Portanto, afirmar que a crítica se volta à “pretensão de superioridade” é extrapolar o que foi efetivamente dito no texto.

Regra teórica aplicada: Em interpretação de textos, conforme orientam as gramáticas de referência (Bechara; Cunha & Cintra), é essencial ater-se ao que está no texto. Não se deve deduzir significados ou intenções não explicitamente manifestas, evitando interpretações projetivas ou extrapoladas. Palavras de sutileza como “relativizar” podem indicar pegadinha: aqui, o autor não relativiza, mas reitera o contraste.

Estratégia para provas: Observe sempre termos de oposição (como “não”) e repetições. Questões sofisticadas costumam misturar uma análise correta com uma interpretação indevida — como no caso do “pretensamente superior”. Analise cada parte da assertiva à luz do texto e evite assumir sentidos não expressos.

Resumo do porquê do erro: A assertiva erra ao dizer que o autor relativiza sua oposição (quando na verdade a reforça), e ao atribuir ao texto explicitamente uma crítica à “pretensa superioridade”, o que simplesmente não se encontra no fragmento.

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Comentários

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Acredito que quando o texto diz, em relação ao autor, "por ele considerada superficial e pretensamente superior", está extrapolando, pois no texto o autor não deixa explícita essa visão.

Também acho interessante mencionar que a questão não pede interpretação, inferência ou conclusão a partir das ideias do texto, o que me leva a crer que só se deve considerar o que está escrito, e não o que está subscrito.

Para mim, a pausa retórica não foi para relativizar a posição do autor, mas reforçá-la.

Sempre que se trata das repúblicas latino-americanas, os doutores e publicistas da política mundial se limitam a lavrar sentenças.

Uso do "Não" (quarto período):

O autor emprega "Não" não para relativizar a oposição, mas para reforçar uma contraposição direta. O termo funciona como uma negação enfática, marcando que, em vez dos estudos detalhados mencionados anteriormente, os europeus adotam uma postura superficial ("sentenças invariáveis e condenatórias"). Não há relativização, e sim uma crítica contundente.

Repetição de "se limitam":

A expressão "se limitam" é repetida nos dois últimos períodos ("se limitam a lavrar sentenças" e "se limitam a ditar conselhos") com o propósito de reforçar a crítica à abordagem eurocêntrica. A repetição expõe a falta de profundidade e a arrogância nas análises europeias, corroborando a ideia de superficialidade e pretensão de superioridade.

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