No período “O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente”, o...
“O cego Estrelinho”
Mia Couto
O cego Estrelinho era pessoa de nenhuma vez: sua história poderia ser contada e descontada não fosse seu guia, Gigito Efraim. A mão de Gigito conduziu o desvistado por tempos e idades. Aquela mão era repartidamente comum, extensão de um no outro, siamensal. E assim era quase de nascença. Memória de Estrelinho tinha cinco dedos e eram os de Gigito postos, em aperto, na sua própria mão.
O cego, curioso, queria saber de tudo. Ele não fazia cerimónia no viver. O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente. Dizia, deste modo:
— Tenho que viver já, senão esqueço-me.
Gigitinho, porém, o que descrevia era o que não havia. O mundo que ele minuciava eram fantasias e rendilhados. A imaginação do guia era mais profícua que papaeira. O cego enchia a boca de águas:
— Que maravilhação esse mundo. Me conte tudo, Gigito!
A mão do guia era, afinal, o manuscrito da mentira. Gigito Efraim estava como nunca esteve S. Tomé: via para não crer. O condutor falava pela ponta dos dedos. Desfolhava o universo, aberto em folhas. A ideação dele era tal que mesmo o cego, por vezes, acreditava ver. O outro lhe encorajava esses breves enganos:
— Desbengale-se, você está escolhendo a boa procedência!
Mentira: Estrelinho continuava sem ver uma palmeira à frente do nariz. Contudo, o cego não se conformava em suas escurezas. Ele cumpria o ditado: não tinha perna e queria dar o pontapé. Só à noite, ele desalentava, sofrendo medos mais antigos que a humanidade. Entendia aquilo que, na raça humana, é menos primitivo: o animal.
— Na noite aflige não haver luz?
— Aflição é ter um pássaro branco esvoando dentro do sono.
Pássaro branco? No sono? Lugar de ave é nas alturas. Dizem até que Deus fez o céu para justificar os pássaros. Estrelinho disfarçava o medo dos vaticínios, subterfugindo:
— E agora, Gigitinho? Agora, olhando assim para cima, estou face ao céu?
Que podia o outro responder? O céu do cego fica em toda a parte. Estrelinho perdia o pé era quando a noite chegava e seu mestre adormecia. Era como se um novo escuro nele se estreasse em nó cego. Devagaroso e sorrateiro ele aninhava sua mão na mão do guia. Só assim adormecia. A razão da concha é a timidez da amêijoa? Na manhã seguinte, o cego lhe confessava: se você morrer, tenho que morrer logo no imediato. Senão-me: como acerto o caminho para o céu?
Foi no mês de dezembro que levaram Gigitinho. Lhe tiraram do mundo para pôr na guerra: obrigavam os serviços militares. O cego reclamou: que o moço inatingia a idade. E que o serviço que ele a si prestava era vital e vitalício. O guia chamou Estrelinho à parte e lhe tranquilizou:
— Não vai ficar sozinhando por aí. Minha mana já mandei para ficar no meu lugar.
O cego estendeu o braço a querer tocar uma despedida. Mas o outro já não estava lá. Ou estava e se desviara, propositado? E sem água ida nem vinda, Estrelinho escutou o amigo se afastar, engolido, espongínquo, inevisível. Pela pimeira vez, Estrelinho se sentiu invalidado.
— Agora, só agora, sou cego que não vê.
(...)
COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. (Pág 23 e 24).
No período “O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente”, o pronome “LHE” exerce a função sintática de:
- Gabarito Comentado (1)
- Aulas (2)
- Comentários (4)
- Estatísticas
- Cadernos
- Criar anotações
- Notificar Erro
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Tema central: Esta questão aborda análise sintática com foco na identificação da função do pronome "lhe" na frase “O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente.” O candidato precisa distinguir complemento nominal de outras funções sintáticas, ponto recorrente em provas de Língua Portuguesa para concursos.
Justificativa da alternativa correta (C – Complemento Nominal):
Na frase em análise, o termo "lhe" completa o sentido do adjetivo "pouco". O complemento nominal é o termo que acompanha nomes (substantivos, adjetivos e advérbios) para completar-lhes o sentido, normalmente antecedido por preposição. Segundo a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Cunha & Cintra), esse pronome equivale, na prática, a "para ele", completando a noção transmitida pelo adjetivo.
No trecho, “O sempre lhe era pouco”, temos:
- "pouco": adjetivo que expressa insuficiência;
- "lhe": indica a quem o "sempre" era pouco.
Perceba: o adjetivo pede o complemento para clarear o sentido. Assim, "lhe" é complemento nominal, pois completa o adjetivo, referindo-se ao personagem cego (Estrelinho).
Análise das alternativas incorretas:
A) Objeto Direto: Só pode ser objeto direto se completar verbo transitivo direto, sem necessidade de preposição (ex: "Vi-o ontem."). Não é o caso, pois o termo não completa verbo.
B) Objeto Indireto: Completa verbo transitivo indireto, geralmente introduzido por preposição (ex: "Obedeço-lhe."). Aqui, "lhe" não completa verbo transitivo, mas adjetivo.
D) Adjunto Adnominal: Determina ou qualifica substantivo (ex: "meu livro", "casa azul"). "Lhe" não determina substantivo, mas completa o sentido do adjetivo.
E) Objeto Direto Preposicionado: É o objeto direto antecedido de preposição por questões estilísticas ou de clareza, o que não se aplica à frase apresentada.
Dica para provas: Sempre que um termo completar o sentido de um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) e for regido de preposição, pense em complemento nominal. Se determinar substantivo, adjunto adnominal. Se completar verbo, objeto direto/indireto.
Referências: Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), Cunha & Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo).
Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!
Clique para visualizar este gabarito
Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo
Comentários
Veja os comentários dos nossos alunos
Observando o índice da questão, provavelmente GAB incorreto. Alguém que concorda com esse gabarito?
gabarito equivocado
O Pronome Pessoa Oblíquo Átono LHE exerce uma função de Complemento Nominal quando o nome exige-o.
O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente.
O que era pouco e tudo insuficiente? O sempre! Houve uma derivação imprópria como o processo de substantivação.
Vamos eliminar o LHE da oração:
O sempre era pouco e tudo insuficiente.
Era pouco e o tudo insuficiente A QUEM? A MIM.
Isto é:
O sempre era pouco e o tudo insuficiente A MIM.
Bom, foi dessa forma que eu conseguir acertar essa questão!
“O sempre era pouco a mim e o tudo insuficiente.. O sempre é o sujeito, verbo "ser" de ligação e "pouco"é adjetivo. Complemento nominal vem seguido de adjetivo, assim como de adverbio. Sendo assim, certinho.. Na maioria das questões, quando existir um "lhe" e um verbo de ligação, será Complemento.
Clique para visualizar este comentário
Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo