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Q3993070 Português

        Carta LXV
        Ao padre provincial do Brasil 1654  

        Com esta frota partimos pelo rio Tocantins, aproveitando-nos da enchente da maré, que só até aqui nos acompanhou, prometendo-nos muita felicidade na jornada. (...) À meia noite fizemos pabóca, que é a frase com que cá se chama o partir, corrompendo a palavra da terra, e nos dias seguintes passamos às praias da viração. Parecerá que se chamam assim por correr nelas vento fresco; mas a razão por que os portugueses lhe deram este nome é a que direi a V. Rev.ma. Nos meses de outubro e novembro, saem do mar e do rio do Pará grande quantidade de tartarugas, que vêm criar nos areais de algumas ilhas que pelo meio deste Tocantins estão lançadas. (...) A estas mesmas praias vem, no seu tempo, quase todo o Pará a fazer a pesca das tartarugas. (...) A carne é como a de carneiro, e se fazem dela os mesmos guisados, que mais parecem de carne que de pescado. Os ovos são como os de galinha na cor, e quase no sabor, a casca, mais branca, e de figura diferente, porque são redondos (...); e o modo como se faz esta pesca requer mais notícia que indústria, pela muita cautela e pouca resistência das tartarugas. Quando vêm a desembarcar nestas praias, trazem diante duas, como sentinelas, que vêm a espiar com muita pausa; logo depois destas, com bom espaço vêm oito ou dez, como descobridores do campo, e depois delas, em maior distância, vem todo o exército das tartarugas, que consta de muito milhares. Se as primeiras e as segundas sentem algum rumor, voltam para trás, e todas se somem num momento: por isso os que vêm à pesca se escondem todos atrás dos matos e esperam de emboscada com grande quietação e silêncio. Saem, pois, as duas primeiras espias, passeiam de alto a baixo toda a praia, e como estas acham o campo livre, saem também as da vanguarda, e fazem muito devagar a mesma vigia e, como dão a campanha por segura, entram à água e voltam, e depois dela sai toda a multidão do exército com os escudos às costas, e começam a cobrir as praias e correr em grande tropel para o mais alto delas. Aplica-se cada uma a fazer sua cova, e, quando já não saem mais e estão entretidas umas no trabalho, outras já na dor daquela ocupação, rebentam então os pescadores da emboscada, tomam a parte da praia e, remetendo as tartarugas, não fazem mais que ir virando e deixando, porque em estando viradas de costas não se podem mais bulir, e por isso estas praias e estas tartarugas se chamam de viração (...).

Antônio Vieira. Cartas. V. 1, São Paulo: Globo, p. 277-279. 

A respeito do texto precedente e de seus aspectos linguísticos e literários, julgue o item a seguir.


Ao descrever a captura de tartarugas para consumo alimentar, na região do Pará, o autor recorre à linguagem metafórica pelo uso da expressão "toda a multidão do exército com os escudos às costas", para se referir aos artefatos usados pelos pescadores na emboscada.

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Comentários

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erro está na identificação do referente, não no reconhecimento da linguagem metafórica.

Vieira usa, sim, linguagem metafórica ao longo da descrição das tartarugas, e "toda a multidão do exército com os escudos às costas" é parte desse recurso.

O problema é que a expressão não se refere aos artefatos dos pescadores: refere-se às próprias tartarugas.

O texto constrói uma analogia militar para descrever o comportamento das tartarugas.

Elas avançam em formação: primeiro as "sentinelas", depois os "descobridores do campo", por fim "todo o exército".

Os "escudos às costas" são as carapaças das tartarugas, não qualquer instrumento dos pescadores. A metáfora bélica é aplicada inteiramente ao grupo de animais, não aos humanos que os capturam.

Os pescadores, na cena, não carregam escudos nem sequer recebem nenhuma designação metafórica equivalente: eles simplesmente "rebentam da emboscada" e viram as tartarugas.

A ação deles é descrita de forma direta, quase prosaica, o que contrasta exatamente com a grandiosidade atribuída ao "exército" animal.

 

Sem enrolação -  "toda a multidão do exército com os escudos às costas", - se refere as tartarugas.

mas o texto é repleto de comparação!

"toda a multidão do exército com os escudos às costas"

esta falando das tartarugas e não dos pescadores que iam caçar

O cara que escreveu essa carta é um completo demente.

Está se referindo ao casco das tartarugas.

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