Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do...
Ao reconhecer aos povos indígenas o direito às terras que habitam, a Constituição Federal de 1988 favoreceu processos de demarcação de territórios, que continuam a ser feitos até hoje. Em todas as regiões do Brasil, as reivindicações geraram uma profusão de relatórios, laudos e pareceres, produzidos por grupos técnicos, que realizam os estudos etno-históricos, antropológicos, ambientais e cartográficos exigidos pela legislação. Em cada uma dessas iniciativas, consta um elemento em comum: os mapas. Há representações oficiais, feitas no período colonial, no Império e na República. Há desenhos feitos à mão pelos moradores ou produzidos com a ajuda de sistemas de navegação por satélite, como o GPS, e aplicativos. Por conseguinte, a cartografia vem ganhando importância na área da antropologia, em contextos como a formação de professores indígenas, a demarcação e a gestão ambiental de suas terras, a produção de laudos para a regularização fundiária.
Nas demarcações, tem sido fundamental a cartografia histórica, sobretudo para a análise de mapas produzidos na segunda metade do século XVIII, após a assinatura do Tratado de Madrid, que delimitou os territórios pertencentes a Portugal e Espanha na América do Sul, em 1750, afirma a historiadora Íris Kantor. "Nesse período, os mapas foram confeccionados por expedições militares e científicas que visavam urbanizar os indígenas, além de terem facilitado a construção de fortalezas, a instalação de registros fiscais e o reconhecimento das vias de comunicação terrestres e fluviais. Hoje, a disponibilização da cartografia digital em alta resolução e a catalogação dos espécimes cartográficos permitem fazer um uso 'contracolonial' desses suportes de informação geográfica bidimensionais", afirma. Além disso, o uso dos mapas históricos exige conhecimentos variados. Eles são classificados segundo critérios como o suporte material, a linguagem gráfica e o público destinatário. Na elaboração dos laudos técnicos, a presença ou ausência de topônimos nos mapas possibilita a reconstituição das sucessivas formas de ocupação de uma área geográfica, considerando-se ainda as famílias de mapas da região. Esse método requer o conhecimento da história das línguas indígenas e suas interações com as línguas dos colonizadores.
Diego Viana. Quando o mapa é o território.
In: Pesquisa FAPESP, maio 2023, ano 24, n. 327, p. 74-79 (com adaptações).
Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue o item seguinte.
Mantêm-se a correção gramatical e a coerência das ideias do texto caso o comentário da historiadora no segundo período do segundo parágrafo seja assim reestruturado: A confecção dos mapas foi realizada nesse período, por expedições militares e científicas constituídas afim de urbanizar os indígenas, além de que auxiliaram na construção de fortalezas, na instalação de registros fiscais e no reconhecimento das vias de comunicação terrestres e fluviais.
Comentários
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Errado.
A reestruturação introduz dois problemas que comprometem a correção gramatical.
O primeiro é o uso de "afim de" no lugar de "a fim de".
São grafias distintas com sentidos distintos. "A fim de" (locução prepositiva em três palavras) exprime finalidade.
"Afim" (uma palavra, adjetivo) significa "semelhante", "relacionado", "com afinidade".
Escrever "expedições constituídas afim de urbanizar" é erro ortográfico que altera o sentido: as expedições não seriam formadas com o objetivo de urbanizar, mas sim semelhantes a urbanizar, o que não faz sentido.
O segundo problema é "além de que".
A construção normativa para esse contexto é "além de" seguido de infinitivo ou de substantivo, ou "além do que" quando se retoma uma oração.
"Além de que auxiliaram" mistura as duas estruturas sem obedecer a nenhuma delas, resultando numa construção não prevista pela gramática padrão e que gera ambiguidade sobre o sujeito de "auxiliaram".
Há ainda uma questão de coerência.
O original afirma que as expedições "visavam urbanizar os indígenas", atribuindo a elas uma intenção declarada.
A versão reestruturada diz que foram "constituídas a fim de urbanizar", o que fortalece e radicaliza essa finalidade como propósito fundante das expedições. Essa alteração de sentido não é neutra.
Não sei se eu estou certo , caso não esteja me corrijam.
A confecção dos mapas foi realizada nesse período, por expedições militares e científicas
Nessa parte você já mata a questão porque a virgula separou o complemento do verbo (por expedições militar e cientificas ).
A confecção dos mapas foi realizada nesse período, por expedições militares e científicas constituídas afim de urbanizar os indígenas
Erro gramatical por separar o complemento do verbo e do sujeito.
Estaria correto se assim fosse reescrito:
" A confecção dos mapas foi realizada ,nesse período, por expedições militares e científicas constituídas a fim de urbanizar os indígenas A confecção dos mapas foi realizada nesse período, por expedições militares e científicas constituídas afim de urbanizar os indígenas...
A afirmativa está errada porque a frase reescrita contém dois erros gramaticais. O primeiro é o uso de "afim de" junto, que na verdade significa "parecido com", sendo a forma correta "a fim de" (separado), que expressa finalidade, ou seja, "com o objetivo de". O segundo erro é "além de que", que não é uma construção aceita na norma culta do português, devendo ser substituída por "além de" ou "além disso". Como a reescrita introduz esses dois erros, ela não mantém a correção gramatical do texto original, tornando a afirmativa incorreta.
A reescrita prejudica a correção gramatical. Primeiro, a vírgula após “período” separa o verbo do agente da passiva (“por expedições militares e científicas”), o que é inadequado. Além disso, o correto é “a fim de” (locução de finalidade), e não “afim de”. Há ainda problema de paralelismo em “além de que auxiliaram”, estrutura que compromete a fluidez e a coerência sintática do período. Portanto, gabarito ERRADO
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