O autor se identifica com o personagem no trecho:

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Q1912451 Português
A questão refere-se ao texto abaixo. 

Era sobre a luz, a luz que adentrava as vidraças e sobre o seu corpo, sobre o jornal e os sapatos gastos que encontravam as ruas todos os dias, porque tudo falava de alguma maneira sobre um desajuste seu ao mundo quase intransponível. Seus olhos e sua cabeça deveriam estar repousados na página de ofertas de emprego, mas eram o café e a firmeza da cadeira, e o chão limpo e a elegância de sua posição que o deixavam confortável na fração que pode ser ao mesmo tempo instante e eternidade.

E naquelas páginas estava a vida além da casa, do bairro, além da cidade. Naquelas páginas se abriam inúmeras janelas para o mundo, eu bem sei, e sobre elas se lia com curiosidade sobre o que não podíamos viver por estarmos cercados, e muitas vezes os sapatos que calçamos são os códigos que nos marcam aos lugares onde podemos ou não estar. Nos confinaram em baias, como animais domésticos, mesmo que não falássemos sobre isso, e não falássemos também que não poderíamos estar onde exatamente desejávamos. Mas naquele instante era um homem e lia, e se sentia parte do entorno por compreender o que poderia ser uma guerra e suas conquistas, o que poderia ser a morte e a política.


JUNIOR, Itamar Vieira. Você bem sabe. Instituto Moreira Sales, 02 de março de 2022. Disponível em: <https://ims.com.br/por-dentro-acervos/voce-bem-sabe-por-itamar-vieira-junior/>. Acesso em: 23 mar. 2022 (fragmento). 
O autor se identifica com o personagem no trecho:
Alternativas

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Tema central: Interpretação de texto, com foco em foco narrativo e identificação do narrador com o personagem.

A questão exige perceber quem narra e se o narrador se inclui ou não nos acontecimentos do texto, ponto fundamental para interpretar a intenção do autor – aspecto presente em diversos editais.

Justificativa da alternativa correta (D):

Na frase Nos confinaram em baias, como animais domésticos, mesmo que não falássemos sobre isso”, o uso do pronome “nos” claramente demonstra que o narrador inclui-se na condição dos personagens, ou seja, ele faz parte do grupo descrito. Essa construção é típica do foco narrativo em primeira pessoa do plural, criando identificação e empatia, como governam as regras de coesão textual (Cunha & Cintra) e teoria do narrador (Massaud Moisés).

Além disso, essa escolha narrativa fortalece o sentimento coletivo, importante para reconhecer experiências compartilhadas e aproximar o narrador do leitor.

Análise das alternativas incorretas:

A) O pronome “seu” e a 3ª pessoa afastam o narrador dos fatos, referindo-se a um personagem, não a si próprio.
B) O trecho segue em 3ª pessoa (“desajuste seu”), mostrando distanciamento do narrador em relação ao personagem.
C) Descreve o conteúdo das páginas (vida além da casa, do bairro...). Novamente, narrativa em 3ª pessoa, sem autoinclusão do narrador.
E) A frase emprega “um homem”, termo genérico e externo (“ele lia”), não há, portanto, autoidentificação do narrador com o personagem.

Estratégia de prova: Ao identificar pronomes como “nos”, “nós” ou “me”, atente-se se o narrador está se colocando dentro da ação. Já pronomes de 3ª pessoa (“ele”, “seu”, “um homem”) geralmente demonstram afastamento, foco externo ao narrador.

Regra central: “O narrador que emprega a 1ª pessoa do plural está incluído nos fatos narrados; quando utiliza a 3ª pessoa, narra de fora, com distanciamento.” (Conforme Cunha & Cintra; Massaud Moisés).

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