No 1º§ do texto, a referência à avaliação pública dos modelo...
Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2026
Banca:
Instituto Consulplan
Órgão:
Prefeitura de Bálsamo - SP
Prova:
Instituto Consulplan - 2026 - Prefeitura de Bálsamo - SP - Procurador |
Q4357803
Português
Texto associado
A era da abundância de inteligência
Em julho, a OpenAI publicou um relato incomum: admitiu ter suspendido temporariamente o uso interno de um de seus
modelos mais avançados após observar comportamentos imprevistos, e descreveu como reconstruiu seus sistemas de segurança a partir do episódio. Meses antes, OpenAI e Anthropic, concorrentes diretas, haviam avaliado publicamente os modelos
uma da outra em testes de alinhamento. Quando os próprios criadores de uma tecnologia passam a discutir abertamente novas
formas de controle e supervisão, a mensagem não é de alarme, e sim de escala. Não estamos diante de mais uma onda de
novidades tecnológicas, mas de uma transformação histórica.
Pela primeira vez na história da humanidade, a inteligência deixou de ser um recurso escasso. A Revolução Agrícola democratizou a produção de alimentos, a Revolução Industrial multiplicou a força física humana, a internet democratizou o acesso à
informação e a inteligência artificial dá o passo seguinte: democratiza capacidades intelectuais! Durante milênios, a inteligência
especializada foi privilégio de poucos, do escriba ao advogado, do engenheiro ao médico. Hoje, milhões de pessoas produzem
textos, programam, analisam documentos, traduzem idiomas e resolvem problemas complexos em segundos, com o apoio de
sistemas inteligentes. É o que chamo de Era da Abundância de Inteligência.
Não se trata de substituir o especialista, mas de ampliar o alcance de cada pessoa que pensa, cria e decide e essa abundância terá seu impacto mais profundo sobre uma geração que ainda nem chegou à escola! Chamo essas crianças de “IA Born”:
nascerão e crescerão em um mundo onde a inteligência artificial sempre existiu, assim como os nativos digitais jamais conheceram um mundo sem internet. Essa geração não vai “aprender IA”, ela simplesmente viverá em um ambiente onde a inteligência estará presente em praticamente toda atividade intelectual, tão invisível e onipresente quanto a eletricidade e isso mudará
por completo sua forma de aprender, trabalhar, criar e tomar decisões.
Aqui surge o paradoxo que deveria nos tirar o sono. Enquanto a transformação avança em ritmo acelerado, continuamos
formando crianças segundo um modelo educacional concebido para um mundo em que o conhecimento era raro. Boa parte da
escola ainda opera sobre pressupostos do século XIX: memorizar, repetir, responder corretamente, trabalhar sozinho, evitar
consulta, desconfiar de ferramentas externas. O mundo profissional, enquanto isso, valoriza exatamente o oposto: formular
boas perguntas, pensar criticamente, criar, colaborar, atravessar disciplinas, resolver problemas inéditos e, cada vez mais, usar
ferramentas inteligentes com julgamento, sabendo validar respostas em vez de apenas aceitá-las. O conhecimento continua
essencial, pois sem repertório não há pensamento crítico. Mas memorizar deixou de ser o principal diferencial competitivo.
O desafio, porém, não se encerra na escola. Nós, pais, teremos uma responsabilidade igualmente decisiva: criar filhos
emocionalmente estáveis e menos ansiosos em um mundo veloz, de estímulos constantes e acesso instantâneo a tudo. Uma
geração acostumada a respostas imediatas precisará aprender, em casa, o valor da paciência, da frustração bem vivida, do tédio
criativo e do tempo longe das telas. De pouco adiantará formar mentes brilhantes, se não formarmos também emoções sólidas!
O equilíbrio emocional será tão importante quanto a competência intelectual para viver e prosperar nesse novo cenário.
Porque toda abundância cria novas carências. Quando a inteligência se torna acessível a todos, o que passa a ser raro e
valioso é justamente aquilo que a máquina não entrega: julgamento, ética, criatividade, curiosidade, imaginação, empatia, responsabilidade e visão estratégica. A capacidade de formular a pergunta certa vale mais do que a de recitar a resposta pronta e
o discernimento para identificar quando a IA está certa e quando está errada torna-se, talvez, a competência definidora do
profissional deste século.
A pergunta, então, é inevitável: estamos preparando nossos filhos para o passado ou para o futuro? Continuamos ensinando habilidades que eram fundamentais quando a informação era escassa, mas que deixarão de representar vantagem em
um mundo de inteligência abundante? Não se trata de ensinar as pessoas a utilizar a inteligência artificial, pois essa é a parte
fácil e as ferramentas mudarão muitas vezes. O verdadeiro desafio do século XXI é preparar a primeira geração que jamais
conhecerá um mundo sem ela. A educação precisará ir além de formar pessoas que sabem responder. Terá de formar pessoas
capazes de decidir, interpretar, criar e liderar sistemas inteligentes, e não de competir com eles.
A inteligência artificial não é apenas mais uma inovação. Ela inaugura uma nova etapa da civilização, comparável à agricultura, à máquina a vapor e à internet, talvez até maior. A grande pergunta não é se a IA substituirá pessoas, mas sim: que competências continuarão sendo exclusivamente humanas quando a inteligência deixar de ser um recurso escasso? A maior responsabilidade da nossa geração não é construir inteligências artificiais cada vez mais poderosas, mas sim, preparar seres humanos,
a começar pelas crianças que já estão nascendo, capazes de usá-las com sabedoria e serenidade!
(Por Diego Teixeira. Disponível em: https://www.jb.com.br/brasil/opiniao/artigosl. Acesso em: julho de 2026.)
No 1º§ do texto, a referência à avaliação pública dos modelos e ao debate sobre mecanismos de controle permite inferir que: