A crônica de Antônio Torres aborda o assunto da linguagem d...
Leia o texto abaixo para responder à próxima questão:
Preconceito de linguagem
Na Romênia, segundo dizem os jornais franceses, que agora muito se interessam por tudo quanto diz respeito aos moldo-valáquios, na Romênia há certas palavras que em todas as outras línguas cultas têm significação nobre e que entre os romenos têm significação pejorativa. Chamar, por exemplo, a algum romeno marquês, ou condessa a alguma romena, é cometer injúria e grande. Entre eles, não se diz príncipe em romaico, porque esta palavra tem a significação analógica de jogral; de sorte que adotaram lá a palavra francesa prince, para designar qualquer membro da família real. A palavra rei também é injuriosa. Tanto assim que, na tradução do livro bíblico dos Reis, escrevem os romenos Livro dos Imperadores!
Em português há também palavras de significação primitivamente honesta e que entretanto agora não podem ser pronunciadas diante de pessoas de respeito. No norte de Minas, por exemplo, como no Norte de todo o país, chamar dama a uma senhora é arriscar a pele. Dama, lá por aquelas plagas, é “mulher perdida”.
A palavra moça pode ser pronunciada diante de quem quer que seja. “Esta menina está ficando moça” — “Sua filha é uma bela moça” — são expressões correntes. Entretanto, querendo alguém referir-se à amásia de alguém diz: “A moça de Fulano”!
Rapariga! É uma das palavras mais lindas da nossa língua. Em Minas, entretanto, rapariga aplica-se mais às mulheres do serviço doméstico, isto é, amas, cozinheiras, arrumadeiras, etc. Aqui, já vai tendo significação pejorativa: casa de raparigas é o mesmo que bordel. Ora, é um absurdo isso. Rapariga é simplesmente feminino de rapaz. Seria encantador poder toda gente dizer, como ainda há dias ouvi dizer a um espírito eminente, que me dá a honra da sua amizade: “V. não imagina que rapariga valente é minha mulher”.
Mãe! Não se discute a beleza desta suavíssima palavra. Pois também a palavra mãe vai assumindo significação equívoca. Em certas locuções é um vocábulo pelo menos suspeito. Os jornais já começam a substituí-lo por progenitora. É incrível! Que qualquer palavra possa derrancar com o tempo compreende-se; mas a palavra mãe? O noticiário elegante tem receio de dizer: “Faz anos hoje a Sra. Dona Fulana, muito digna mãe do nosso amigo Sr. Beltrano”. Em vez de mãe, escrevem progenitora, que é uma palavra erudita, seca, como todas as coisas eruditas, fria e pernóstica.
Mãe é alguma coisa tépida, doce, nobre como o colo materno. Progenitora é simplesmente uma delicadeza de moleque bem-falante. Mãe, colegas, mãe! Devemos escrever “a mãe do Sr. Fulano”, da mesma forma que escrevemos “O pai do Sr. Beltrano” e “o filho de Dona Sicrana”. Ninguém diz na intimidade — “vou beijar minha progenitora”, mas simplesmente — “vou beijar minha mãe”.
É para desejar que os jornais abandonem de uma vez a palavra progenitora, que é, etimologicamente, muito mais grosseira do que mãe. Progenitora compõe-se do prefixo pro e da raiz genite, de gigno, gignis, genui, genitum, gignere, que quer dizer gerar. De maneira que, posta em bom vernáculo, progenitora é a pró ou antegeradora do Sr. Fulano. Não sei onde está a delicadeza desta expressão…. Por conseguinte, de uma vez para sempre, estabeleçamos que os homens têm virtuosas e dignas mães, e não ridículas e pernósticas progenitoras.
Antônio Torres
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de Texto e Semântica (mudança de sentido das palavras e preconceito linguístico).
Explicação da alternativa correta (B):
A crônica de Antônio Torres debate o fenômeno de certas palavras que, originalmente, tinham sentido neutro ou positivo, mas que, em determinados contextos e épocas, passaram a receber conotação negativa. O texto critica essa transformação sem justificativa lógica ou moral, destacando que as palavras “dama”, “rapariga” e até mesmo “mãe” foram alvo de mudanças semânticas influenciadas por preconceitos sociais.
Assim, a alternativa B é correta porque resume a ideia central: Injustamente algumas palavras ganham conotação negativa, segundo o uso que ganham dentro de determinado idioma.
Note que a análise depende de cuidadosa leitura do texto, percebendo que o autor questiona e lamenta esse “desequilíbrio” nos sentidos das palavras, o que caracteriza injustiça e preconceito.
Por que as demais alternativas estão incorretas?
A) Fala em “propositalmente”, mas o texto não afirma que a mudança tem intenção deliberada; ela ocorre, na maioria das vezes, de modo espontâneo e social.
C) Diz que o preconceito é “inócuo”, contrariando abertamente a crítica do autor; a crônica mostra que o preconceito tem efeitos negativos e é alvo de protesto.
D) Limita o foco à Romênia e à nobreza, porém o texto utiliza o exemplo romeno apenas para ilustrar um fenômeno mais geral, comparando-o à língua portuguesa e à realidade brasileira.
E) Supõe que o preconceito é “mais perceptível” em certas regiões, quando a crônica mostra que essa mudança ocorre em diferentes lugares e contextos, não sendo exclusiva de Minas Gerais.
Estratégias para acertar questões semelhantes:
Observe sempre os termos de generalização, os adjetivos de valor (“injusta”, “proposital”, “inócuo”) e se o texto julga, critica ou apenas descreve um fenômeno. Assinale a alternativa que melhor reproduz o posicionamento do autor, identificando claramente se há juízo de valor ou só narração.
Lembre-se: domínios como semântica e preconceito linguístico são frequentes em provas de interpretação. O Manual de Redação da Presidência da República recomenda, inclusive, evitar termos que gerem ambiguidades e preconceito.
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