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Q1276049 Português
A cidade acordou mais cedo.

Primeiro foram os fogos. E ainda não eram seis da manhã. Depois os tiros. Em seguida, os voos de helicóptero. Assim amanheceu a Rocinha neste sábado. Por esse motivo, na favela e nos bairros que a contornam, como um abraço dos aflitos, não se pode dizer que seja sábado, dia de descanso.

Os helicópteros vêm e vão nesse sobrevoo que parece meio sem sentido. A cidade não pode descansar há muito. É sempre guerra em algum ponto. Leio nos jornais de hoje que a Urca também tem guerra de facções. Urca costumava ser deixada de lado nessa insana conquista de territórios, porque sempre foi bairro dos militares e alguns poucos privilegiados civis que conseguiram uma casa no belo e aconchegante bairro. Fui lá outro dia, comi uma caldeirada de frutos do mar, iguaria sem competidor, e olhei o Rio depois da água. É bela a vista de lá, como de resto, a cidade por natureza e destino continua linda. E cada vez mais à deriva, no seu próprio mar de baía.

Hoje, com a confusão na Rocinha, a Zona Sul acordou mais cedo. Ou não, diria Caetano, um dos seus ilustres moradores. A Zona Sul pode ter se acostumado depois de tantos anos de conflito na área conturbada, ou pode ter escolhido abafar o ruído da realidade atrás dos fones de ouvido.

O Rio é como um belo navio onde navegamos todos juntos, não importa qual seja a classe social. Ou nos salvamos juntos ou afundaremos. Há quem creia que a embarcação já aderna cansada de guerra. Nas mazelas do Brasil, coube a esta cidade intensa e bela viver em seu corpo a geografia das desigualdades. Somos todos vizinhos. Chapéu Mangueira entra em ebulição e o Leme fica trancado em casa, sem ter como sair e viver a vida naquela ponta bonita do mar de Copacabana. A Rocinha em disputa afeta um arco de bairros. Do lado de cá a Gávea, do lado de lá São Conrado. Outro dia, o Fallet-Fogueteiro acordou encrencado e fecharam-se as portas do bonito casario colonial de Santa Teresa que, ademais, há muito vive cercado.

Por sermos todos vizinhos, pelo menos o Rio não pode repetir o alienado e perverso enredo do Titanic de trancar os pobres e tentar salvar a primeira classe. A cidade é partida sim, mas é como uma grande casa de quartos contíguos. A fortuna separa, contudo a tragédia é compartilhada. Os fogos, tiros e voos desta manhã provam que não haverá futuro para o Rio que não seja comum. Pensamentos terminais e aflitos para um sábado que seria de descanso, se possível fosse.

https://g1.globo.com - Miriam Leitão - junho/18
A partir da leitura do texto, assinale a alternativa que apresenta sua ideia central:
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Para resolver essa questão de interpretação de texto, é importante identificar a ideia central do texto de Miriam Leitão. A estratégia aqui é buscar a mensagem que permeia o texto como um todo, o que geralmente está relacionado a algum aspecto crítico ou reflexivo sobre a situação abordada.

Alternativa Correta: B - "O futuro do Rio de Janeiro será comum às diferentes classes sociais."

A escolha dessa alternativa é fundamentada no fato de que o texto discute como os problemas da cidade, como a violência e a desigualdade, afetam a todos, independentemente da classe social. O autor usa metáforas, como o Rio sendo um "belo navio" em que todos estão juntos, para destacar que o destino da cidade é coletivo e que os desafios precisam ser enfrentados por todos.

Alternativas Incorretas:

A - "A cidade do Rio de Janeiro acordou num sábado entre fogos e tiros."

Essa alternativa faz referência a um detalhe do texto, mas não representa sua ideia central. O foco não está no evento em si, mas nas consequências sociais e coletivas desses eventos.

C - "A Urca e outros bairros da Zona Sul se acostumaram com os conflitos no Rio."

Embora o texto mencione que a Urca e outros bairros são afetados, a ideia central não é o costume aos conflitos, mas sim a interconexão e o impacto coletivo desses problemas entre as classes sociais.

D - "O Leme não pode usufruir da vida na ponta bonita do mar de Copacabana."

Semelhante à alternativa A, esta também descreve um aspecto específico, mas não é abrangente o suficiente para capturar a mensagem geral do texto, que é sobre a coletividade do futuro da cidade.

Para interpretar textos de maneira eficaz, é útil identificar palavras-chave e metáforas que indiquem um tema geral, em vez de se fixar em detalhes isolados. A prática de resumir parágrafos em uma frase pode ajudar a captar a essência do texto.

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Comentários

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Gabarito: B

➥ O último parágrafo revela a nossa resposta: Por sermos todos vizinhos, pelo menos o Rio não pode repetir o alienado e perverso enredo do Titanic de trancar os pobres e tentar salvar a primeira classe. A cidade é partida sim, mas é como uma grande casa de quartos contíguos. A fortuna separa, contudo a tragédia é compartilhada. Os fogos, tiros e voos desta manhã provam que não haverá futuro para o Rio que não seja comum. Pensamentos terminais e aflitos para um sábado que seria de descanso, se possível fosse.

➥ FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

Miriam Leitão defendendo a ideia de que o crime organizado e ações da polícia afetam igualmente pobres e ricos.

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