O passado é um lugar seguro Maria Rita Kehl A família de min...

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Ano: 2011 Banca: IBFC Órgão: CRA-SP
Q1186327 Português
O passado é um lugar seguro 
Maria Rita Kehl 
A família de minha mãe, no passado, teve uma pequena fazenda vendida quando eu tinha sete anos. Ali passei as férias da primeira infância. Ali minha mãe passou todas as férias da vida dela. Ao deixar de ser nossa, a fazenda do Tatu virou mito. Durante muitos anos minha mãe me contava as aventuras da infância dela. Imaginada através de la neblina delajer a infância de minha mãe incorporou-se à minha própria memória em um escaninho paradisíaco, tanto mais meu quanto mais perdido para ela. Até hoje, diante de paisagens de terra vermelha ou do cheiro do capim-gordura na beira da estrada sou tomada pela inquietante nostalgia de um passado que não me pertence: sinto saudades da infância de minha mãe. A qual por sua vez terá chegado a mim atravessada por vagas lembranças da infância da mãe dela, nascida em uma fazenda ainda mais remota em um interior perdido de Minas Gerais. Só muito recentemente eu me dei conta de que a doce vidinha de meus bisavôs na lendária Pacau, matéria da nostalgia rural acalentada por minha família materna, teria sido sustentada à custa de trabalho escravo. Não que eu não soubesse nada disso. Achávamos muita graça no episódio em que alguns escravos de estimação de minha bisavó viúva vieram uma tarde lhe contar, candidamente: “sinhá, o feitor não vai mais trabalhar por aqui porque nóis matemo ele”. Complacente ou indolente, sinhá contratou outro feitor e manteve os escravos a que estava habituada. A violência cotidiana da escravidão que culminou no justiçamento de um feitor anônimo e certamente cruel não impediu que a geração de minha mãe nos transmitisse uma saudade imensa dos “bons tempos” da vida no Pacau. 
Bons tempos é o nome que damos ao passado – qualquer passado. São os bons tempos, é o nosso tempo. Passei a adolescência e parte da juventude sob a ditadura militar, e isto não impede que me pegue com frequência a acalentar uma estranha utopia em retrospecto, de que “no meu tempo” a vida tinha mais graça. De todas as formas de escapismo inventadas pelos homens para suportar o osso duro da vida real, talvez o mais inconsciente seja a idealização do passado. Direita e esquerda, conservadores e progressistas cultivam, cada um à sua maneira, o mito de seus bons tempos. Isto é mais grave para a esquerda, que se arrisca a cultivar as utopias que já (não) foram. Mas não é de hoje que tudo fica cada vez pior aos olhos das gerações presentes. “Esse mundo tá perdido, sinhá!” – era o bordão da ex-escrava “tia Anastácia” nos livros infantis de Monteiro Lobato. 
O mundo globalizado volta-se todo para o futuro. A vida imita a urgência das apostas antecipadas que cria as tais bolhas de não-riqueza do capital financeiro. A tecnologia aponta para a superação de todas as descobertas, que já nascem com os dias contados, fadadas à obsolescência. Chamamos de progresso a essa forma de vida breve das coisas, fruto do trabalho humano que envelhece tão rapidamente quanto elas. 
O presente é uma partícula mínima de tempo, cada vez mais comprimida entre o que já foi e o que será. A rigor, pensem bem: o presente não existe. O futuro é um lugar gelado onde não vive ninguém, de onde só nos acenam promessas de velocidade. A depender das tecnociências hoje, no futuro nos deslocaremos ainda mais depressa, nos comunicaremos mais depressa, ganharemos e perderemos dinheiro mais depressa – e tentaremos envelhecer mais devagar. 
Considere as afirmações que seguem. 
I. A autora defende os regimes autoritários, pois considera que o período da ditadura militar, no qual passou a sua infância, foi bom. 
II. A tendência a idealizar o passado faz com que as pessoas, muitas vezes, não reparem no que de mau havia na época. 
Está correto o que se afirma em:
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a inferência textual controlada pela tese explícita do texto: a autora afirma que a “idealização do passado” é uma forma de escapismo e usa a escravidão e a ditadura militar como exemplos de como o passado pode ser nostalgicamente reinterpretado. Assim, a assertiva II é compatível com o texto, enquanto a I extrapola ao transformar esse exemplo em defesa de regime autoritário.

Tema central: idealização do passado
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque depende da validade de I, e I contraria o texto em dois pontos. Primeiro, a autora não defende a ditadura militar; ela enquadra a sensação de que “no meu tempo” a vida tinha mais graça como “estranha utopia em retrospecto” e como “idealização do passado”. Segundo, a assertiva altera a informação literal ao dizer “infância”, quando o texto afirma: “Passei a adolescência e parte da juventude sob a ditadura militar”.
B
Certa
A alternativa B está correta porque a assertiva II coincide com a tese do texto: a autora mostra que a idealização do passado pode encobrir o que havia de mau em outras épocas. Isso aparece de modo direto quando a nostalgia dos “bons tempos” da vida no Pacau é confrontada com o fato de que aquela vida era sustentada por trabalho escravo e por “violência cotidiana da escravidão”. Portanto, II não é extrapolação: é uma inferência autorizada pelos exemplos argumentativos e pela tese explícita de que a idealização do passado é uma forma de escapismo.
C
Errada
Incorreta porque reúne I e II como corretas, mas apenas II é sustentada pelo texto. I resulta de extrapolação indevida: transforma um exemplo de nostalgia retrospectiva em adesão ideológica a um regime autoritário, o que o texto não autoriza.
D
Errada
Incorreta porque nega também a assertiva II, que está expressamente apoiada no texto. A autora mostra, com o exemplo da fazenda e da escravidão, que a nostalgia dos “bons tempos” convive com o apagamento de aspectos gravemente negativos do passado.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre mencionar nostalgia em relação a um período vivido e defender politicamente esse período; o texto faz o contrário disso, pois usa a própria nostalgia como exemplo de idealização enganosa do passado.
Dica para questões semelhantes
  • Antes de validar uma assertiva, identifique a tese explícita do texto e subordine a ela os exemplos citados.
  • Não transforme relato autobiográfico em defesa ideológica se o próprio texto enquadra esse relato como ilusão, idealização ou escapismo.
  • Confira palavras literais do texto quando a assertiva traz dado factual; aqui, “adolescência e parte da juventude” invalida “infância”.

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Comentários

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Gabarito: letra B.

I. A autora defende os regimes autoritários, pois considera que o período da ditadura militar, no qual passou a sua infância, foi bom. ERRADO. "Passei a adolescência e parte da juventude sob a ditadura militar, e isto não impede que me pegue com frequência a acalentar uma estranha utopia em retrospecto, de que “no meu tempo” a vida tinha mais graça".

II. A tendência a idealizar o passado faz com que as pessoas, muitas vezes, não reparem no que de mau havia na época. CERTO. "De todas as formas de escapismo inventadas pelos homens para suportar o osso duro da vida real, talvez o mais inconsciente seja a idealização do passado".

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