A seguir você vai ler os dois primeiros parágrafos do romanc...
"Era para ser um dia normal, de aula. Mas Janalice percebeu algo diferente ao entrar. Não
que sua passagem no pátio do colégio não provocasse, sempre, algum frisson por conta da
altura de sua saia. Mas era mais do que isso. Dentro da sala, cochichos e risos. Então, a
professora se irrita e alguém se levanta. Entrega um celular. A professora põe a mão na
boca. Sai. O que é que tem no celular? Janalice assiste a uma demorada cena de felação
que ela protagoniza, junto a seu namorado, Fenque, com direito a closes de sua genitália,
a pedido dele. Chocada, não sabe o que dizer. A professora retorna. A diretora vem junto.
Pede que ela saia. Que volte para casa. Que somente retorne com os pais. E, atravessando
o pátio, agora ouve claramente o deboche de todos.
Janalice tem catorze anos. Em casa, a mãe chora. Grita. Estapeia. Rasga suas roupas.
Entra o pai, com a farda de cobrador de ônibus. Tira o cinto. Espanca. Expulsa de casa. Ela
sai chorando pela rua. Em uma esquina, Fenque está com os amigos. Ela chega e pede
ajuda. Ele a trata mal. Ri de sua cara. Os amigos também. Ela cobra. Ele dá um tapa. Sai
fora."
Augusto, 2015, p. 7
Edyr Augusto, além de autor de romances, é jornalista, radialista e autor de textos teatrais.
Ao falar da própria escrita, ele diz “eu escrevo como quem dá socos na boca do estômago
do leitor repetidas vezes, para que ele não consiga respirar e continue lendo. É como se eu
não quisesse que ele largasse o livro. Às vezes, tá lendo, 'amanhã eu continuo', não! Siga
e vá até o final. Essa é a ideia.” (https://www.youtube.com/watch?v=_F0209fplMk. Acesso
em 22 mar. 2022, às 20h).
Relacionando a fala do escritor sobre a sua produção literária e os procedimentos narrativos
adotados no trecho em destaque, é possível dizer que: