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Q1163594 Português

      Todos nós temos grandes expectativas sobre nossa passagem pelo mundo. E não me parece que devemos deixar de tê-las. A sabedoria consiste em compreender que é preciso medir a grandeza com nossa própria fita métrica. Se nos tornamos refens de algo que hoje é determinante na nossa época, por exemplo, que é o reconhecimento da importância de alguém pela quantidade de aparições na mídia, estamos perdidos. Render-se a uma determinação ditada pelo mercado é tão destrutivo como passar a vida tentando agradar a um pai opressor e para sempre insatisfeito, como vejo tanta gente. Em ambos os casos, estaremos sempre aquem, sempre em falta. E, mesmo quem vive sob os holofotes, vive em pânico porque não sabe por quanto tempo conseguirá manter as luzes sobre si.

      Mas de que luzes precisamos para viver? E a quem queremos agradar? Quem e o que importam de verdade? Essa reconciliação é o que nos leva, de fato, à vida adulta, no que ela tem de melhor. Acredito que crescemos quando conseguimos nos apropriar da medida com que avaliamos nossa existência, nosso estar no mundo. Ninguém tem de ser isso ou aquilo, ninguém “tem de” nada. Quem disse que tem? É preciso duvidar sempre das determinações externas a nós – tanto quanto das internas. “Por que mesmo eu quero isso?” é sempre uma boa pergunta.

      Tenho uma amiga que só se transformou em uma chefe capaz de ajudar a transformar para melhor a vida de quem trabalhava com ela quando se reconciliou com suas próprias expectativas, quando descobriu em si uma grandeza que era de outra ordem. Só se tornou uma mãe capaz de libertar os filhos para que estes vivessem seus próprios tropeços e acertos quando se apaziguou consigo mesma. Ela, de quebra, descobriu que era talentosa numa área, a cozinha, na qual até então não via nenhum valor. Ao descobrir-se cozinheira, não pensou em empreender uma nova maratona, desta vez na tentativa de virar uma chef e fazer um programa de TV. Já estava sábia o suficiente para exultar de alegria ao acabar com a boa forma de suas amigas mais queridas.

      Como minha amiga e como todo mundo, eu também acalentei grandes esperanças sobre minha própria existência. Depois do fracasso da minha carreira de astronauta, desejei ser escritora. Acho que ser escritora é o que quis desde que peguei o primeiro livro na mão e consegui decifrálo. É claro que eu não queria apenas escrever um livro de entretenimento. Eu escreveria, obviamente, a maior obraprima da humanidade. Meu primeiro livro já nasceria um clássico. Eu reinventaria a linguagem e ditaria novos parâmetros para a literatura. Depois de mim, Proust e Joyce estariam reduzidos ao rodapé do cânone.

      Não é divertido? Acreditem, eu rio muito. E até me enterneço. No meu quarto amarelo, lá em Ijuí, eu fiz o seguinte plano. Emily Brontë escreveu ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ aos 19 anos. Logo, eu deveria escrever minha obra-prima aos 17, no máximo 18. Pois não é que os 18 anos passaram e eu estava mais ocupada com fraldas e com beijos na boca? Bem, eu já não seria tão precoce assim, mas me conformei. Afinal, minha obra seria tão acachapante, tão revolucionária, que mesmo aos 20 e poucos eu seria considerada um prodígio. E os 20 passaram, assim como os 30, e lá vou eu aumentando cada vez mais os “e tantos” dos 40.

      Não desisti de um dia escrever um romance, não. Acho mesmo que ele está mais perto, agora que eu me absolvi de escrever a grande obra da literatura mundial. Mas foi só depois de me apropriar da medida da minha vida que me descobri estonteantemente feliz como contadora de histórias reais. Quando finalmente escrever um romance de ficção, ele só será possível porque vivi mais de duas décadas embriagada de histórias absurdamente reais e gente de carne, osso e nervos. E só será possível porque deverá estar à altura apenas de mim mesma. Só precisarei ser fiel à minha própria voz.

      Porque é esta, afinal, a grande aventura da vida. Desvelar ___ nossa singularidade, o extraordinário de cada um de nós – descobrir ___ voz que é só nossa. Mesmo que essa descoberta não se torne jamais uma capa de revista. O importante é que seja um segredo nosso, um bem precioso e sem valor monetário, que guardamos entre uma dobra e outra da alma para viver com furiosa verdade esse milagre que é a vida humana.

(Texto adaptado especialmente para esta prova. Disponível em: http://desacontecimentos.com/?p=445. Acesso em: 25/10/2019.)

Com base no que é exclusivamente explicitado pelo texto, é correto afirmar que a sua autora:
Alternativas

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Interpretação da Questão: A questão aborda a interpretação de um texto que discute as expectativas e a busca pela autovalorização da autora. É importante ler atentamente as alternativas e verificar qual delas está de acordo com o que foi explicitado no texto.

Análise da Alternativa Correta:

Alternativa C: “Entende que, quem vive sob os holofotes, vive em pânico por não saber por quanto tempo conseguirá manter as luzes sobre si.”

Esta alternativa é correta porque, no texto, a autora menciona a insegurança de quem está em evidência, afirmando que essas pessoas vivem em pânico devido à incerteza de quanto tempo conseguirão manter sua visibilidade. Essa ideia está claramente expressa e é um dos pontos centrais da reflexão dela sobre a vida e as expectativas.

Justificativa das Alternativas Incorretas:

Alternativa A: “Deixaria que Proust tivesse a primazia de escrever a maior obra-prima da humanidade.”

Esta alternativa é incorreta porque a autora expressa uma ambição de superação em relação a Proust, afirmando que sua obra seria tão impactante que ele seria reduzido a um rodapé. Portanto, a afirmação de que ela deixaria Proust ter essa primazia não condiz com suas palavras.

Alternativa B: “Confessa que ser escritora é o que quis desde que pegou na mão o seu primeiro livro.”

Embora a autora mencione que querer ser escritora surgiu após pegar seu primeiro livro, essa informação não é totalmente precisa. Ela fala sobre a aspiração de escrever, mas também reflete sobre outras expectativas e frustrações ao longo do tempo, o que torna essa afirmação muito simplista.

Alternativa D: “Só se transformou em uma chefe capaz de ajudar a transformar para melhor a vida de quem trabalhava com ela quando se reconciliou com suas próprias expectativas.”

Essa alternativa é incorreta porque faz uma afirmação que não é explicitamente discutida no texto. A autora menciona uma amiga que se tornou uma boa chefe após se reconciliar, mas não é a própria autora quem fala sobre essa transformação. Portanto, essa informação não se aplica à autora diretamente.

Conclusão: A alternativa correta é a C, pois reflete com precisão uma das principais ideias do texto sobre a vida sob os holofotes e a pressão que isso causa. As demais alternativas falham em capturar a essência das afirmações da autora ou interpretam de maneira errada o que foi dito.

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Comentários

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GABARITO: LETRA C

→ Segundo o texto, no 1º parágrafo: Em ambos os casos, estaremos sempre aquem, sempre em falta. E, mesmo quem vive sob os holofotes, vive em pânico porque não sabe por quanto tempo conseguirá manter as luzes sobre si.

☛ FORÇA, GUERREIROS(AS)!!

Sobre a letra B.

B) Confessa que ser escritora é o que quis desde que pegou na mão o seu primeiro livro. > Não basta somente ter o livro em mãos, a escritora tem que ser capaz de lê-lo/decifrá-lo/compreendê-lo. A assertiva está incompleta.

§4°>Como minha amiga e como todo mundo, eu também acalentei grandes esperanças sobre minha própria existência. Depois do fracasso da minha carreira de astronauta, desejei ser escritora.Acho que ser escritora é o que quis desde que peguei o primeiro livro na mão E consegui decifrálo.''

LETRA C. É a alternativa que está no texto. Na alternativa B, há uma omissão de parte da mensagem do texto, no qual a autora alega ter o desejo de ser escritora desde o momento em que pegou um livro e pode descrevê-lo.

Gabarito letra C.

Resposta no final do primeiro parágrafo: "E, mesmo quem vive sob os holofotes, vive em pânico porque não sabe por quanto tempo conseguirá manter as luzes sobre si."

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