“Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrati...

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Q3880399 Português
Canudos não se rendeu


   Fechemos este livro.

   Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

   Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.

   Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem...

   Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos...

   [...] Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.
“Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos... “
A incredulidade dos leitores futuros se deve
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A inferência textual decorre do trecho obrigatório em que a “incredulidade do futuro” é associada à cena extrema de “mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos...”; assim, a causa é o teor humanamente chocante e quase inconcebível dos fatos narrados, o que sustenta a alternativa A.

Tema central: inferência textual
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque traduz com fidelidade a causa da incredulidade indicada no texto: os leitores futuros tenderiam a custar a acreditar não por falta de prova, mas porque os fatos narrados são ações-limite, de desespero e violência extremos. O trecho citado explicita que a incredulidade decorre da cena de “mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos”, isto é, de ações humanamente quase inconcebíveis pelo seu teor trágico.
B
Errada
Incorreta porque o texto não menciona falta de documentos nem relaciona a incredulidade a comprovação documental. A causa apresentada é semântica e textual: os “pormenores” da cena final são tão extremos que parecem inacreditáveis.
C
Errada
Incorreta porque não há no trecho qualquer referência à ausência de outros depoimentos ou confirmações. A incredulidade apontada pelo narrador não é probatória; ela decorre do conteúdo trágico e chocante do que é narrado.
D
Errada
Incorreta porque o excerto não afirma que os fatos foram apenas contados ao autor, nem apresenta a não presencialidade como motivo da incredulidade futura. A alternativa introduz uma causa que não está textualizada.
E
Errada
Incorreta porque o texto não classifica os fatos como exagerados ou fantasiosos. Ao contrário, apresenta-os como parte da tragédia histórica de Canudos; o caráter chocante do relato não autoriza lê-lo como exagero.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre “incredulidade” como dúvida por falta de provas e “incredulidade” como reação ao teor extremo dos fatos narrados; aqui, o texto aponta claramente para a segunda hipótese.
Dica para questões semelhantes
  • Localize no próprio trecho a palavra ou expressão que explica a causa pedida pelo comando; aqui, a causa da incredulidade aparece ligada aos “pormenores” narrados.
  • Diferencie dúvida sobre prova de espanto diante do conteúdo: nem toda “incredulidade” em texto interpretativo é questão de documento ou testemunho.
  • Elimine alternativas que acrescentam fatores não mencionados no texto, como falta de documentos, de depoimentos ou relato indireto.
  • Não confunda relato trágico e excepcional com exagero narrativo; intensidade não equivale a invenção.

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Comentários

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A alternativa correta é a A) à presença de ações humanamente inimagináveis.

Quando Euclides da Cunha escreve que a narrativa "desafiaria a incredulidade do futuro", ele está prevendo que as gerações seguintes (nós, os leitores do futuro) teriam imensa dificuldade em acreditar que os fatos relatados realmente aconteceram.

E por que seríamos incrédulos? A resposta está na própria continuação da frase: "mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos".

Para o autor, o nível de desespero e barbárie chegou a um ponto tão extremo que contraria os instintos humanos mais básicos (como o de sobrevivência e o de proteção materna). Uma mãe se jogar no fogo com seu bebê é uma ação tão absurda, chocante e humanamente inimaginável que qualquer um no futuro que lesse sobre isso acharia que é mentira.

A — A frase sugere que, no futuro, os leitores teriam dificuldade em acreditar em certos acontecimentos por serem extremamente chocantes e difíceis de imaginar dentro da experiência humana comum — como mulheres se lançando às fogueiras com os filhos.

B — incorreta: não fala de falta de documentos.

C — incorreta: não trata de ausência de testemunhos.

D — incorreta: não depende de o autor ter presenciado ou não.

E — incorreta: não se baseia em exagero, mas na própria natureza chocante dos fatos.

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