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Q3880396 Português
Canudos não se rendeu


   Fechemos este livro.

   Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

   Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.

   Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem...

   Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos...

   [...] Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.
A primeira frase do texto – “Fechemos este livro” – aparece escrita na primeira pessoa do plural porque
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: "Fechemos este livro." aciona um uso metadiscursivo da primeira pessoa do plural: o verbo não aponta, no texto, para um grupo real de agentes, mas para um plural enunciativo de valor autoral/enfático, pelo qual o narrador-autor marca o encerramento da obra; como o trecho não identifica leitores, editor, auxiliares ou qualquer coletivo concreto, a consequência é a correção da alternativa C.

Tema central: plural autoral enfático
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não explicita interlocução com os leitores como parte do sujeito de "fechemos". Há possível envolvimento retórico, mas isso não autoriza ler o "nós" como referente gramatical efetivo de autor + leitores.
B
Errada
Está errada por extrapolação sem apoio textual. Nada no fragmento menciona pessoas que auxiliavam o autor, de modo que transformar o plural em referência literal a esse grupo introduz informação externa ao texto.
C
Certa
A alternativa C é a correta porque reconhece que a forma "Fechemos" não deve ser lida literalmente como ação conjunta de várias pessoas identificáveis no texto. O enunciado é metadiscursivo: não trata do fato narrado, mas do próprio ato de concluir o livro. Nesse contexto, a primeira pessoa do plural amplia discursivamente a voz do enunciador, mas o gesto de encerramento permanece vinculado ao autor-narrador.
D
Errada
Está errada porque o editor não aparece no trecho nem integra a voz enunciativa apresentada. A alternativa mistura uma instância externa de produção do texto com o sujeito implícito do verbo, sem qualquer marca textual que sustente isso.
E
Errada
Está errada porque generaliza indevidamente o alcance do plural para "todos os futuros leitores". O fragmento não projeta esse referente universal; o efeito principal de "fechemos" é autoral/metadiscursivo, não a convocação explícita de um público futuro.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de tomar a primeira pessoa do plural como plural literal e de preencher esse "nós" com participantes não textualizados, como leitores, editor ou auxiliares, quando o trecho usa um plural enunciativo de valor autoral.
Dica para questões semelhantes
  • Se o enunciado comenta o próprio ato de narrar ou concluir o texto, verifique se o plural é metadiscursivo, e não referencial.
  • Só leia o "nós" como grupo real quando o texto der referente expresso ou claramente recuperável.
  • Elimine alternativas que acrescentem participantes não nomeados no fragmento.
  • Diferencie envolvimento retórico do leitor de identificação gramatical efetiva do sujeito.

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C

"Nós" no lugar do "Eu"

O plural enfático (ou plural de modéstia) é um recurso onde o autor utiliza a 1ª pessoa do plural para evitar o egocentrismo do "eu". No caso de Euclides da Cunha, isso confere uma solenidade quase científica ou épica ao texto. Ao dizer "fechemos este livro", ele assume a autoridade de quem construiu a obra. Ele está fechando o ciclo da escrita de uma história que ele mesmo confessou ser difícil de narrar (devido à "vertigem" e à tragédia).

FGV focou na ideia de que o autor é o protagonista da ação de escrever.

Como acertar uma questão como essa?

  • Ação Estrita de Autoria: Para a FGV, a ação de "fechar o livro" neste contexto não é o ato físico do leitor dobrar a capa, mas sim o ato do escritor de encerrar a narrativa. É Euclides da Cunha decidindo que não há mais o que relatar, dada a magnitude da tragédia de Canudos. Logo, é uma ação praticada exclusivamente por ele.
  • Plural Enfático / Plural de Modéstia: Em vez de usar a primeira pessoa do singular ("Eu fecho este livro"), o autor utiliza a primeira pessoa do plural ("Fechemos"). Na gramática e estilística tradicionais cobradas pela FGV, isso serve para diluir a figura do "eu", dando um tom mais solene, imponente e grandioso ao encerramento (daí o termo "enfático").

Por que a banca rejeitou a Letra A? Enquanto uma análise literária moderna veria a frase como um convite de cumplicidade ao leitor, a FGV se apega à literalidade da produção textual. Como o leitor não participou da "escrita" ou da "decisão de finalizar a obra", a banca entende que o plural não o inclui, servindo apenas como um recurso retórico do próprio autor para enfatizar sua decisão de concluir o relato.

Essa é uma daquelas questões clássicas em que é preciso ter a "malícia" da banca, deixando de lado interpretações mais abrangentes para focar estritamente nas figuras de linguagem clássicas. Excelente correção.

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