A vantagem de ser paraplégico, segundo o cronista, é determi...

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Q2759904 Português

TEXTO I


Ser deficiente é privilégio de ser diferente


___Uma cena usual no dia a dia de um parampa (que é como os paraplégicos paulistas se denominam, melhorzinho que o metálico chumbado, termo preferido pelos cariocas): num estacionamento, esperando o manobrista número um trazer o carro. Se aproxima o manobrista número dois, olha minha cadeira de rodas, o horizonte, e pergunta na lata: Foi acidente? Olho rápido para a rua e devolvo: Onde? Algum ferido? Melhor chamar uma ambulância! Vocês têm telefone?

___Outra cena: numa fila de espera, se aproxima um sujeito, aponta a cadeira de rodas e diz: É duro, né? Minha resposta: Não, é até confortável. Quer experimentar? Mais uma: uma criança brincando pelos corredores de um shopping me vê na cadeira e pergunta: Por que você está na cadeira de rodas? Devolvo: Porque eu quero. E você, por que não está na sua? Já vi crianças me apontando e dizendo para os pais: Quero uma igual àquela! Quando o pai vem se desculpar (e não sei por quê, vem sempre se desculpar), eu logo interrompo: Compre logo uma para ele. Sem contar os incontáveis comentários tipo Tem que se conformar, O que se pode fazer?, A vida tem dessas coisas...

___Peculiar curiosidade essa de saber se um paraplégico é um acidentado ou de nascença. À beira da piscina de um hotel, lá vem o hóspede. Para ao meu lado e solta um Foi acidente?. Antes que eu exibisse minha grosseria e impaciência, ele foi avisando: Sou ortopedista. Costumo operar casos como o seu. Aqui na região há muitos motoqueiros que se acidentam... Entramos numa conversa técnica que até poderia render se ele não dissesse, me olhando nos olhos: Jesus cura isso aí. Antes que eu perguntasse o endereço do consultório desse Jesus, ele continuou: Você pode não acreditar, mas já o vi curando muitos iguais a você. Eu não quero ser curado. Eu estou bem assim costuma ser minha resposta que, se não me engano, é verdadeira.

___Aliás, Paulo Roberto, paraplégico, professor de filosofia de Brasília, anunciou seu novo enunciado: “Nós não devemos ser curados. Seria um trauma maior que o próprio acidente. Não conseguiríamos reconstruir uma terceira identidade. Não saberíamos administrar nossa falta de diferença. O homem cultural, diferente do homem natural, é aquele que constrói a si próprio, pelo respeito ao que possa ter de igual e de diferente.” Foi minha última e definitiva revelação nesses 13 anos de paraplegia. Se alguém me ouvisse, um dia, nas ruas do centro, dizendo a mim mesmo Que sorte ter ficado paraplégico, não acreditaria. Mas eu disse: Conheço um mundo que poucos conhecem. Sou diferente. Sou um privilegiado.


PAIVA, Marcelo Rubens. Crônicas para ler na escola. Seleção

Regina Zilberman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

A vantagem de ser paraplégico, segundo o cronista, é determinada pela capacidade demonstrada de

Alternativas

Gabarito comentado

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Alternativa correta: B - construir, pela diferença, uma segunda identidade.

1. Tema central da questão

Esta questão aborda a interpretação de textos, focando em como o cronista enxerga a condição de paraplégico e que visão positiva ele constrói em relação a essa experiência. Saber ler além do óbvio, percebendo nuances e intenções do autor, é fundamental para responder esse tipo de questão em concursos públicos.

2. Resumo teórico

A interpretação de textos exige atenção ao sentido global do texto, ao tom do narrador e à relação entre as ideias. É importante perceber como conceitos como identidade, diferença e superação aparecem no texto. O cronista reflete sobre o valor de ser diferente e a construção de uma nova identidade a partir de sua experiência.

3. Justificativa da alternativa correta

A alternativa B é correta porque resume a principal ideia defendida pelo cronista: ele vê a paraplegia não como uma perda, mas como uma oportunidade de se reconstruir e ser diferente. Isso está explícito quando menciona a fala do professor Paulo Roberto: "Não conseguiríamos reconstruir uma terceira identidade. Não saberíamos administrar nossa falta de diferença." Ou seja, a diferença é valorizada como parte da identidade do indivíduo, e o autor encontra nisso um privilégio.

4. Análise das alternativas incorretas

A - Fala em "confiança na cura", mas o texto reforça que o autor não deseja ser curado e está bem assim.

C - Não há, no texto, a ideia de transformar o homem cultural em natural; pelo contrário, valoriza-se a construção cultural da identidade.

D - "Administrar uma terceira identidade" é citado como algo negativo, pois o autor diz que seria um trauma reconstruir uma terceira identidade.

5. Estratégias para interpretação

Leia sempre atentamente o texto, buscando o sentido implícito das palavras do autor. Questões de interpretação frequentemente trazem pegadinhas, como a inversão de sentidos ou o uso de exemplos apenas ilustrativos. Fique atento ao que o autor realmente valoriza e rejeita.

Resumo final: O privilégio de ser diferente, para o autor, está em construir uma nova identidade a partir da diferença, e não em buscar a cura ou negar sua condição.

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