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Q3409604 Português
Linguagem jurídica e democracia


     Chega em boa hora o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, anunciado no fim do ano passado pelo ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O adjetivo “simples”, geralmente associado ao que é comum (um quarto simples), modesto (roupas simples) ou rebaixado numa escala hierárquica (um simples funcionário), pode também caracterizar o que é desprovido de rebuscamento ou afetação – e é aí que entra a “linguagem simples” no Direito.

    No campo jurídico, ainda persiste a tradição de uso de uma linguagem ornamentada, que se revela tanto no tom laudatório e na seleção de vocábulos raros como no uso de longos advérbios, farta adjetivação, inversões sintáticas, períodos extensos, excesso de partículas de negação, tudo isso emoldurando o emprego da terminologia específica do Direito. No Brasil, cunhou-se o termo popular “juridiquês” para denominar essa linguagem, que tem ares de um idioma hermético, cuja compreensão é franqueada apenas a iniciados.

   Se a terminologia da área tem sua função, como ocorre no campo das ciências, da tecnologia ou mesmo da filosofia, o que parece despropositado é o rebuscamento, ou seja, certo “estilo forense”, observado nas peças processuais. Um exemplo pode ajudar o leitor a compreender o problema. Vejamos:

    “As peças que instruem este processo não evidenciam situação de teratologia, ilegalidade flagrante ou abuso de poder que autorize a ordem de ofício. Assentou o Tribunal de origem que ‘não repousa nos autos qualquer missiva de que o ergástulo onde o reeducando encontra-se recluso não reúna condições sanitárias condizentes à proteção a vida [sic] e, nem mesmo que o reeducando não está recebendo ou não pode receber o tratamento adequado dentro do ergástulo’.”
 
    “Não evidenciar situação de teratologia” é um modo rebuscado de dizer que as peças processuais não contêm anomalias ou irregularidades. “Teratologia”, no entanto, é um cultismo. O termo, de origem grega, é composto do radical “terat(o)-”, sinal emitido pelos deuses, mau presságio, coisa espantosa ou animal monstruoso, e do radical “-logia”, formador de substantivos que nomeiam artes, ciências, tratados etc. É frequente o uso dessa palavra na prática forense, mas não se trata de um termo técnico, como o é “ordem de ofício”. É, portanto, necessário distinguir uma coisa da outra.

   “Ergástulo”, um sinônimo erudito de “presídio”, é, rigorosamente, um termo usado para designar o cárcere em que, na Roma antiga, os escravos punidos trabalhavam agrilhoados. Por extensão de sentido, denomina qualquer prisão. Trata-se de um eruditismo. Termos que aludem ao Direito Romano ainda são frequentes nas peças processuais, bem como latinismos e agora os anglicismos.

    O rebuscamento não se limita, no entanto, ao vocabulário. A organização sintática do período também revela a busca de uma aura de complexidade. São comuns inversões de ordem, como se dá em “Assentou o tribunal de origem”, o sujeito posposto ao verbo (em vez de “O tribunal de origem assentou” ou “O tribunal de origem estabeleceu”), ou o uso da lítotes, figura de linguagem que consiste em afirmar algo pela negação de seu contrário (algo do tipo “eu não disse que o local não é bom”, em vez de dizer que “o local é bom”, ou “não repousa nos autos qualquer missiva de que o ergástulo onde o reeducando encontra-se [sic] recluso não reúna condições sanitárias condizentes à proteção a vida”).

   Um ponto curioso nessa história é que, mesmo nesses textos de aparência erudita, são frequentes os desvios da norma-padrão da língua portuguesa. No trecho “onde o reeducando encontra-se recluso”, temos um bom exemplo de vã tentativa de soar mais “culto”. A oração subordinada adjetiva (iniciada pelo “onde”) requer próclise, mas, como sabemos, sobretudo no Brasil, existe a percepção de que a ênclise é uma construção mais erudita – essa percepção difusa vem do fato de que, em nosso país, a próclise coincide com o uso mais frequente no dia a dia.

   Diga-se, a propósito, que a mesóclise (dir-lhe-ia, estabelecer-se-á), embora de baixíssima frequência mesmo entre os falantes bem escolarizados, continua em uso nos textos jurídicos, inclusive nas leis (veja-se o texto constitucional, por exemplo). Não se pretende aqui propugnar pela abolição do sistema de colocação pronominal, que é o menor dos problemas no âmbito desta discussão. O conjunto de elementos – escolhas lexicais e estruturas sintáticas – arrolados segundo o critério da raridade é o que faz da linguagem um obstáculo à compreensão quando sua função precípua é comunicar.

   Comunicar é criar um espaço comum de entendimento. A linguagem da Justiça deve ser mais transparente, sob pena de se ferir, mesmo sem intenção, um direito democrático da população.


(NICOLETI, Thaís. Linguagem jurídica e democracia. Folha de S. Paulo, 2024. Adaptado.)
A tese do texto se sustenta na contradição entre:
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Tema central: A questão explora interpretação de texto, focando na identificação da tese central do texto — ou seja, a contradição que sustenta o argumento do autor.

Análise da alternativa correta (D):
A alternativa "Linguagem erudita e dificuldade de comunicação" é a correta. O texto critica o emprego de uma linguagem jurídica excessivamente erudita, rebuscada e ornamentada — marcada pelo excesso de termos técnicos e construções sintáticas complexas. O principal ponto defendido é que essa postura, longe de valorizar o discurso jurídico, dificulta o acesso, a compreensão e o direito democrático de informação. Veja o trecho-chave: “O conjunto de elementos – escolhas lexicais e estruturas sintáticas – arrolados segundo o critério da raridade é o que faz da linguagem um obstáculo à compreensão quando sua função precípua é comunicar.”

Assim, a contradição fundamental abordada no texto é o uso de uma linguagem técnica e erudita que, ironicamente, prejudica o entendimento até mesmo de quem deveria acessar facilmente essas informações.

Análise das alternativas incorretas:

A) Sintaxe simplificada e terminologia complexa – Incorreta. O texto trata do rebuscamento tanto na sintaxe quanto no vocabulário, não contrapõe sintaxe simples com vocabulário difícil.

B) Linguagem culta e baixo grau de escolarização – Incorreta. Não se discute o grau de escolarização do leitor, mas sim a distância imposta pela linguagem pouco acessível.

C) Linguagem hermética e infrações à norma culta – Incorreta. Embora o texto cite desvios da norma culta entre expressões eruditas, a centralidade do problema não é gramatical, mas comunicacional.

Como chegar à resposta:
Preste atenção à ideia principal do texto e identifique palavras-chave como “obstáculo à compreensão”, “comunicar”, “transparente” e “direito democrático”. Pergunte-se: qual oposição o autor destaca? É entre eruditismo e clareza — logo, alternativa D.

Estratégia de prova: foque não só nos exemplos dados, mas na intenção do texto. Cuidado com alternativas que trazem pares que o texto não articula diretamente.

Cunha & Cintra (em “Nova Gramática do Português Contemporâneo”) reforçam: clareza e acesso devem ser prioridades no uso da linguagem, especialmente onde há impacto público, como no Direito.

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Comentários

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O texto aborda sobre o rebuscamento dos termos jurídicos, mas ao mesmo tempo explica tais termos com outros termos raramente utilizados. Um operador da língua portuguesa querendo se mostrar tão rebuscado quanto o do direito.

"laudatórios"

"aura de complexidade"

"escolhas lexicais"

"arrolados segundo critérios"

"no Brasil, existe a percepção de que a ênclise é uma construção mais erudita"

Linguagem erudita é um tipo de linguagem extremamente formal, rebuscada e que exige conhecimento profundo do idioma. Ela se diferencia da linguagem coloquial e até da linguagem culta por seu vocabulário restrito e sofisticado, sendo utilizada principalmente em contextos acadêmicos, científicos e literários. 

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