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Q2692251 Português

Leia o texto a seguir para responder às questões 1, 2 e 3.

Cheiro das coisas

Flávia Boggio

Já repararam que existe documentário sobre absolutamente tudo? "A Verdade Por Trás da Indústria da Carne." "A Verdade Por Trás da Indústria." "A Verdade Por Trás da Carne." É tanta verdade, que não me espantaria se lançassem o documentário contando "a verdade por trás da indústria de documentários que falam toda a verdade".

Outro dia, assisti ao documentário "O Nariz" que, obviamente, mostra toda a verdade por trás dessa parte do corpo.

O documentário conta como o olfato nos leva às memórias mais antigas e permanentes. Bebês podem reconhecer a mãe poucos dias após o nascimento. Pacientes com Alzheimer em estágio avançado conseguem relembrar pessoas e momentos. Só pelo cheiro.

Fiquei tão fascinada que comecei a cheirar tudo para acessar minha memória olfativa. Alimentos, objetos e lugares. Me peguei farejando uma parede, o sofá de casa, até mesmo o cabelo de uma mulher na fila da farmácia. Eis algumas conclusões fascinantes:

Cheiro de sabonete Phebo me remete a anestesia e brocas. Isso porque meu dentista lavava mãos com esse item de higiene. E não usava luvas.

Xixi de gato me lembra a pracinha do lado da casa da minha mãe. Durante o dia, playground. À noite, toalete e motel de felinos.

Cheiro de cigarro, mesmo depois de conviver com milhares de fumantes (e tendo sido eu mesma uma), ainda me leva ao jardim de infância. Minha primeira professora era fumante. O que me lembra também que sobrevivi aos anos 1980. E à toxoplasmose.

Além de saudosista, o olfato é nosso sentido mais primitivo. É ele que nos conecta a outros animais, que sobrevivem e se reproduzem por meio dos cheiros. É aí que volto ao "O Nariz".

No documentário, perfumistas falam sobre uma das fontes dos melhores perfumes, o âmbar cinzento. Trata-se do nome gourmet de uma pedra encontrada no intestino de cetáceos. Ou seja, o cheiro mais gostoso do mundo é: excremento de baleia.

A gente tenta se sofisticar com perfumes, essências e fragrâncias, mas, no fundo, somos todos bichos. O ser humano gosta mesmo é de um cheiro de cocô. Fiquem com essa verdade.

Para os bichos farejadores que se interessarem, "O Nariz" está no catálogo da Netflix.

(Folha de S. Paulo – 18 abr. 2019)

Com base na leitura do texto, julgue as seguintes afirmações:

I. O texto é essencialmente dissertativo, uma vez que, além de defender um ponto de vista, não contém trechos descritivos ou narrativos.

II. A propósito do gênero textual, trata-se de uma crônica, em que se apresenta uma discussão atual num tom de descontração.

III. O texto tem marcas de subjetividade, mas não promove uma interlocução com o leitor.

IV. No primeiro parágrafo, a autora anuncia o tema principal que pretende discutir.

V. A autora sugere que cheiros, apesar de marcantes, podem não ser tão refinados como parecem.

São corretas as afirmações

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B) II e V, apenas.

Tema central: Interpretação de texto, com destaque em gêneros textuais e características da crônica.

Para resolver essa questão, o candidato precisa reconhecer as características do gênero textual do texto apresentado: trata-se de uma crônica, gênero que explora situações cotidianas, com linguagem leve, subjetiva e frequentemente descontraída.

Justificativa da alternativa correta:

II. Correta. O texto é, de fato, uma crônica: apresenta um olhar subjetivo sobre um fenômeno do cotidiano (a relação das pessoas com cheiros e documentários), e o faz com tom descontraído e atual. Esse formato caracteriza o gênero e seu estilo leve, como já apontam gramáticos como Cunha & Cintra e Bechara.

V. Correta. A autora sugere, ao longo do texto, que cheiros marcantes, embora apreciados, podem ter origens pouco sofisticadas (exemplo: o âmbar cinzento, aroma nobre de perfumes, oriundo de excrementos de baleia). Essa ironia reforça que nem tudo é tão refinado quanto parece – ponto que exige atenção ao subtexto, típico da crônica.

Análise das alternativas incorretas:

I. Incorreta. O texto não é puramente dissertativo; mistura narração (relatos pessoais), descrição (sensações olfativas) e reflexão.

III. Incorreta. O texto possui marcas de interlocução (“Fiquem com essa verdade”, “Para os bichos farejadores que se interessarem…”), aproximando o leitor, recurso comum da crônica.

IV. Incorreta. O primeiro parágrafo serve como introdução irônica sobre documentários, não anuncia diretamente o tema central (olfato e memória), que se desenvolve nos parágrafos seguintes.

Estratégia de prova: Sempre identifique o gênero textual antes de analisar as assertivas – crônicas permitem maior liberdade de construção e subjetividade. Atenção à presença de interlocução, ironia e tonalidade coloquial, marcas importantes para as bancas.

Referências: CUNHA & CINTRA – “Nova Gramática do Português Contemporâneo”; BECHARA – “Moderna Gramática Portuguesa”.

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