O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Tire os homens da estante
Se não compro livros de forma consciente, atento para o
perfil dos autores e das temáticas que consumo, alguém
está tomando essa decisão por mim
Eu te proponho um desafio: retire todos os livros escritos
por homens da sua estante. Preste atenção no resultado.
Provavelmente, há grandes lacunas, espaços em branco
que refletem a falta de diversidade na escolha das
nossas leituras. Se essa tarefa te parece muito desafiadora, fique tranquilo, porque eu já fiz isso com a
minha estante há alguns anos. E, realmente, restou
muito mais parede do que livros naquele cenário.
Agora imagina se a gente começar a fazer isso
pensando em autoras e autores negros ou obras escritas
por pessoas da comunidade LGBTQIA+. Vamos além:
deixar apenas livros de autores do Norte e do Nordeste
do Brasil. O resultado chega a ser assustador. Será,
então, que eu preciso começar a prestar atenção em
quem estou lendo na hora de comprar a minha próxima
leitura?
Quando trago esse tipo de reflexão nas minhas redes
sociais, sempre recebo comentários como "eu escolho
uma obra pela história e não pela autoria" ou "não me
importa se o autor é homem ou branco". De acordo com
essas pessoas, os espaços vazios na estante não
passariam de uma mera coincidência. Eu não tenho
dúvidas de que muita gente não faz essa escolha de
forma proposital e realmente se deixa levar pelo
automático. Mas o problema está justamente aí: se eu
não estou comprando livros de forma consciente, atento
para o perfil dos autores e das temáticas que consumo,
alguém está tomando essa decisão por mim.
E a resposta é simples, já que, quando entro em grandes
livrarias ou nas listas de mais vendidos, a tendência é
que os autores em destaque sigam um mesmo padrão.
O que chega com mais facilidade para o consumidor não
é diverso. E isso é o resultado de anos e anos de um
mercado editorial que privilegiou e abriu mais portas para
um certo perfil de autores e narrativas. Ou seja, o que
aprendemos a enxergar como literatura universal nada
mais era do que um recorte específico de um certo
grupo.
Para que se tenha ideia, uma pesquisa realizada pela
Universidade de Brasília, em 2017, revelou que, entre os
anos de 1965 e 2014, mais de 70% dos romances
lançados foram escritos por homens, 90% por brancos e
mais da metade com origem em São Paulo ou Rio de
Janeiro. Ainda que na última década a preocupação com
a diversidade no mercado editorial tenha crescido, a
situação ainda está longe de ser equilibrada.
Por outro lado, a recente pesquisa "Panorama do
consumo de livros" no Brasil concluiu que as mulheres
pretas e pardas da classe C formam o maior grupo
consumidor de livros no país (15% do total do público
que adquiriu um livro em 2025). Ou seja, há um
desencontro entre quem mais consome livros e quem
mais vende.
A proposta não é ignorar o enredo da história, mas sim
prestar atenção também em quem a escreveu ou na
diversidade das temáticas consumidas, para que a sua
estante não reflita a decisão de um sistema que pensa
diferente de você. Acreditar em uma ideia de
neutralidade no consumo cultural é ignorar que escolha
consciente e escolha automática vão produzir estantes
muito diferentes, e só você pode escolher qual será a
sua.
Texto de: Jornal O Globo. "Tire os homens da estante". Publicado em
Ao afirmar que, se não escolhe seus livros de forma
consciente, "alguém está tomando essa decisão por
mim", o autor defende a ideia de que:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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