(Concurso Milagres/2018) Embora o texto seja um todo, ele ...
Texto
Construção
Chico Buarque de Holanda
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um
príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego
Gabarito comentado
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Tema central da questão: Interpretação de texto poético e análise da progressão temática. O objetivo é reconhecer como as estrofes do poema de Chico Buarque articulam sentido e contribuem para a construção narrativa, elemento essencial para provas de Português que cobram análise global de texto, coesão e coerência.
Justificativa da alternativa correta (C):
I. A primeira e a quinta estrofes tratam do início do ciclo narrativo: o trabalhador despede-se da família ("Amou daquela vez como se fosse a última... Beijou sua mulher... E atravessou a rua..."), marcando a saída para o trabalho. Esta leitura é comprovada pela descrição dos gestos de despedida e deslocamento, requisito fundamental para percepções literais e inferenciais na interpretação de texto, segundo Cunha & Cintra (2008).
IV. A terceira e a sétima estrofes mostram o momento de descanso ("Sentou pra descansar... comeu feijão com arroz..."), sinalizando a pausa efêmera na dureza de sua rotina, que logo prenuncia o desfecho trágico. Isso revela como elementos narrativos estruturam o texto em fases (introdução, desenvolvimento, clímax/tragédia), estratégia comum na análise textual.
Análise das alternativas incorretas:
II. Incorreta, pois as estrofes citadas NÃO SÃO idênticas — apresentam alterações nas palavras finais dos versos. Essas mudanças são fundamentais: alteram o sentido e enriquecem a narrativa, conforme ressalta a análise lexical e semântica indicada por Bechara (2012).
III. Incorreta, pois a última estrofe, embora funcione como refrão, NÃO SE LIMITA a repetir: ela atualiza sentidos, promovendo novas associações e reflexões ao reordenar as palavras finais e, assim, amplia a semântica do texto, indo além de uma simples retomada.
Estrategicamente, é necessário atentar para pequenas variações na estrutura repetitiva das estrofes. Pegadinhas aparecem quando o examinador sugere identidade entre partes apenas semelhantes. Releia com atenção para identificar nuances e deslocamentos de sentido!
Resumo Didático: Alternativa C é correta, pois reconhece a progressão das fases da jornada do trabalhador (saída e descanso) e sua relação com o desenlace trágico, apoiada em leitura atenta, análise interpretativa e comparação entre estrofes. Saiba enxergar além da superfície!
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