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Com base no mesmo assunto
Ano: 2026
Banca:
FAFIPA
Órgão:
Prefeitura de Colombo - PR
Prova:
FAFIPA - 2026 - Prefeitura de Colombo - PR - Professor |
Q4341835
Português
Texto associado
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Bom dia, solidão
-
Que eu sou fã da Tamara Klink não é nenhuma novidade. Como não ser? Corajosa, inteligente,
determinada — mas um modelo a não ser seguido: essa coisa de passar oito meses sozinha em um
barco, com temperaturas abaixo de zero, isolada no fim do mundo, não é para o nosso bico. Melhor
continuar sonhando em ser um BBB, porque Tamara é de outra natureza.
Acabei de ler Bom dia, inverno, o diário de bordo da expedição de Tamara pelo Ártico, durante o
período mais hostil da região. Já havia lido Nós, também de sua autoria, e mais uma vez fiquei
encantada e apavorada: como é que os pais dela não prendem essa garota ao pé da cama? Tamara é
uma profissional da navegação, se prepara obstinadamente e tem a aventura no DNA, mas são
muitos os inimigos: as nevascas, as tempestades, os icebergs, os animais selvagens, os enguiços
mecânicos, sem falar no próprio corpo, que pode dar defeito de uma hora para outra. Ela ainda não
fez 30 anos e enfrenta tudo isso com um prazer desavergonhado e um autocontrole de Buda.
Alguém aí deve estar pensando: faltou falar na solidão, pior inimigo de todos.
Essa é a parte em que Tamara brilha ainda mais. A despeito de toda a palpitação que seus relatos
provocam, vê-la falar sobre solidão nos acalma. Ela desestigmatiza esse estado que é natural e
intrínseco a todos. Sempre defendi a importância de ter amigos íntimos e amores que façam bem à
saúde, mas a relação que precisa, mesmo, dar certo, a gente sabe qual é. Se não tolerarmos nossa
própria companhia, se não formos capazes de nos entretermos a sós por longos períodos, o resto
desanda.
A necessidade de estar com os outros a qualquer custo, para fugir de si, é uma síndrome ainda
pouco debatida e que se alimenta da desonestidade social. Casados gastam mais que solteiros, e ter
filhos duplica a conta. Apoiados pela religião, nações enchem os cofres tentando nos convencer de
que viver sozinho é triste e perigoso. Ora, perigoso é conviver com pessoas falsas, perigoso é se
deixar guiar por convenções que nos desviam de nós mesmos. "Estar sozinha diminui as
dificuldades, não aumenta". Não sou eu, é a moça do barco que diz, aquela que passava semanas
sem ouvir a própria voz, mas que não parava de conversar com seus pensamentos. Em tempos de
conexão frenética com desconhecidos pelas redes sociais, em que todos têm um pitaco para dar e
uma verdade para vender, você confia que seus pensamentos têm sido, de fato, seus?
Adoro namorar, ser mãe, ser filha e fazer parte de turmas reais (em vez de grupos de WhatsApp),
mas eu sei, ninguém me contou: a solidão escolhida é a conexão mais profunda e fértil que se pode
ter na vida. Não impede outras, mas as outras serão simulacros se ela não vier primeiro.
A crônica apresentada parte de uma experiência de leitura e de uma figura pública para
desenvolver uma reflexão sobre solidão, convivência e autonomia subjetiva. A organização
predominante do texto combina: