Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se re...
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 10, leia a crônica abaixo.
-
1.----------Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
2.----------Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu − e sua falta é mais importante para mim do que as reformas do ministério.
3.----------Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
4.----------O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
5.----------Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio − cor incomum em gatos comuns − e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
6.----------Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei, dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
7.----------Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
8.----------Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
9.----------Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
-
(ANDRADE, Carlos Drummond. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra (3° parágrafo).
No trecho acima, o pronome relativo “que” retoma o seguinte termo antecedente:
- Gabarito Comentado (1)
- Aulas (1)
- Comentários (8)
- Estatísticas
- Cadernos
- Criar anotações
- Notificar Erro
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
TEMA CENTRAL: Função morfossintática do pronome relativo “que” (referência e coesão textual).
Nesta questão de Língua Portuguesa, cobrou-se do candidato a identificação do termo antecedente a que o pronome relativo “que” se refere no trecho: “há indivíduos que se consolam comendo carne de gato”.
Segundo a norma-padrão e as principais gramáticas (Celso Cunha & Lindley Cintra; Evanildo Bechara), os pronomes relativos servem para retomar um termo (chamado de antecedente) e introduzir uma oração subordinada adjetiva. Em “há indivíduos que se consolam comendo carne de gato”, o “que” faz referência direta ao termo “indivíduos”. Observe:
- Indivíduos: que se consolam comendo carne de gato
O “que” substitui “indivíduos” e funciona como sujeito da oração subordinada, especificando quais são os indivíduos de que se trata.
Análise das alternativas:
- A) Gatos: Incorreta. “Gatos” está presente na frase, mas o “que” não retoma esse termo, pois os gatos não são os que se consolam.
- B) Fenômeno: Errada. Não há relação lógica nem gramatical entre “fenômeno” e o pronome “que”.
- C) Indústria: Incorreta. “Que” não remete a “indústria”.
- D) Alimentos: Errada. O termo está na frase, porém o pronome não faz essa retomada.
- E) Indivíduos: Correta. O pronome relativo “que” retoma “indivíduos”, funcionando como sujeito da oração “que se consolam...”.
Estratégia para concursos: Sempre identifique o antecedente mais próximo e lógico, observando coerência e sentido da oração subordinada. Pergunte: “Quem se consola?” — os “indivíduos”. Este procedimento ajuda a evitar erros de interpretação.
Segundo Bechara: “O pronome relativo que sempre retoma, sem ambiguidades, o nome mais próximo” (Moderna Gramática Portuguesa).
Conclusão: A alternativa E) Indivíduos é a correta, pois “que” funciona como pronome relativo retomando “indivíduos” e introduz uma oração explicativa sobre eles.
Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!
Clique para visualizar este gabarito
Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo
Comentários
Veja os comentários dos nossos alunos
quando o "que" pode ser substituído por "isso" = conjunção integrante
quando pode ser substituído por "o qual" = pronome relativo
de qual QUE eles estão falando?
Letra E
Quando puder substituir na oração o (que) , por ISSO, irá tratar-se de uma oração subordinada substantiva , no caso os dois primeiros “quês “ podem ser substituídos , não sendo portanto , um pronome relativo .
Diziam- se ISSO
Agora ouço dizer ISSO
O que faz com que sobre o último que , o qual retoma indivíduo .
Não há indicação de qual é o "que" a que a questão se refere.
...há indivíduos que (os quais) se consolam comendo carne de gato...
Clique para visualizar este comentário
Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo