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Q4193397 Português
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    A área da nutrição tem um clichê tão frequente que virou piada. Ovo faz mal? Respostas a perguntas como essa vão sempre variar, dando a impressão de que alimentos específicos são ora benéficos, ora maléficos. Isso porque estudos que avaliam o efeito de alimentos isolados na saúde não têm reflexo na realidade. Não os comemos isoladamente, mas combinados em refeições. Por isso, a epidemiologia nutricional se dedica à análise de padrões alimentares.  

    A ciência tem mostrado que o padrão alimentar baseado em ultraprocessados está associado a um maior risco de desenvolvimento de doenças crônicas. Diabetes e hipertensão são exemplos. Trata-se de um conhecimento estabelecido e que influencia políticas públicas, como na recente lei que proíbe a venda de ultraprocessados nas escolas da cidade do Rio de Janeiro. 

    Em sua coluna nesta Folha, Bruno Gualano questiona o impacto negativo dos ultraprocessados na saúde ("Alimentos ultraprocessados do bem?" , 1º/7). Para isso, volta ao clichê da análise de alimentos isolados. O texto defende que ultraprocessados não são todos igualmente nocivos, citando um estudo que associa subgrupos desses alimentos a uma menor incidência de diabetes. Segundo ele, existiriam, então, ultraprocessados aptos a compor uma alimentação saudável.

    Especialista em fisiologia do exercício, Gualano se rende à prática do "nutricionismo" (nutrição + reducionismo). É a ideia de restringir a componentes menores – nutrientes ou alimentos isolados – o pensamento sobre a alimentação. Os mecanismos que associam ultraprocessados ao desenvolvimento de doenças vão além da mera composição nutricional.

    Formulações industriais com pouco ou nenhum alimento de verdade, ultraprocessados são marcados pela destruição da matriz alimentar de seus ingredientes (em geral, commodities). Resultam em uma mistura de fragmentos – como o amido do milho e o óleo da soja – sem cor, sabor ou textura, o que exige a inclusão de aditivos cosméticos: os corantes, edulcorantes e emulsificantes, dos quais a ciência vem revelando efeitos nocivos a longo prazo.  

    Excessos de açúcar e gordura conferem uma alta densidade energética, levando ao sobrepeso e à obesidade. Um ajuste fino entre esses ingredientes afeta os mecanismos cerebrais de recompensa, levando à adicção alimentar.

    Importa, ainda, o que está ausente nesses alimentos, como os fitoquímicos de vegetais, atuantes na prevenção de doenças. Ou mesmo a textura: ultraprocessados são sempre macios, o que é deletério principalmente para crianças cujo bom desenvolvimento depende da diversidade de consistências. Quem come ultraprocessados, aliás, acaba não comendo mais nada: eles substituem nossas refeições tradicionais. 

    Alimentação também envolve economia, política, ecologia. Gualano aponta que "ultraprocessados do bem" são caros e que os que chegam à mesa dos brasileiros são "o que resta de pior". Para além do preço, esses alimentos fomentam um sistema alimentar insustentável, incentivando grandes monoculturas, impactando a saúde ambiental e degradando culturas alimentares. Em um país rico e biodiverso como o Brasil, de onde brota comida de verdade, não faz sentido identificar opções menos piores de alimentos que têm, sem dúvidas, nos adoecido.


Disponível em: https://tinyurl.com/yejvkzwu. Acesso em: 10 mar. 2026. 

   
De acordo com o texto, qual trecho não se constitui como um argumento para a defesa de uma alimentação sem ultraprocessados? 
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a distinção entre voz autoral e discurso relatado em texto argumentativo: o enunciado pede o trecho que não funciona como argumento do autor em defesa de uma alimentação sem ultraprocessados.

Tema central: voz autoral e refutação
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada como resposta porque o trecho é, sim, argumento do autor contra os ultraprocessados. Ele afirma que "esses alimentos fomentam um sistema alimentar insustentável, incentivando grandes monoculturas, impactando a saúde ambiental e degradando culturas alimentares.", o que integra explicitamente a linha argumentativa do texto. O erro está em excluir um argumento socioambiental e cultural que o autor efetivamente mobiliza.
B
Certa
A alternativa B está correta porque reproduz a posição atribuída a Bruno Gualano, e não um argumento do autor do texto-base. No trecho obrigatório — "Em sua coluna nesta Folha, Bruno Gualano questiona o impacto negativo dos ultraprocessados na saúde (...) O texto defende que ultraprocessados não são todos igualmente nocivos, citando um estudo que associa subgrupos desses alimentos a uma menor incidência de diabetes." — a tese é apresentada como discurso relatado e como objeto de contestação. Assim, embora apareça no corpo do texto, não integra a linha argumentativa do articulista em favor da exclusão de ultraprocessados.
C
Errada
Está errada como resposta porque o trecho funciona como argumento causal de nocividade: "Um ajuste fino entre esses ingredientes afeta os mecanismos cerebrais de recompensa, levando à adicção alimentar." Não é uma informação neutra nem uma posição alheia; é um elemento da argumentação do autor para defender que os ultraprocessados devem ser evitados.
D
Errada
Está errada como resposta porque o trecho também pertence à argumentação autoral: "Os mecanismos que associam ultraprocessados ao desenvolvimento de doenças vão além da mera composição nutricional." A frase rebate diretamente a visão reducionista atribuída ao "nutricionismo" e amplia o campo da crítica aos ultraprocessados. Portanto, constitui argumento do autor, não trecho estranho à defesa proposta.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre trecho citado no texto e tese efetivamente defendida pelo autor: a alternativa B aparece dentro do texto, mas vem marcada como posição de Bruno Gualano, apresentada para refutação.
Dica para questões semelhantes
  • Em texto argumentativo, verifique sempre a quem a opinião é atribuída antes de tratá-la como tese do autor.
  • Observe verbos de elocução, como "questiona" e "defende", porque eles podem introduzir discurso relatado de posição contrária.
  • Não limite os argumentos do texto a um único campo semântico; aqui, a defesa contra ultraprocessados inclui saúde, ambiente, cultura e sistema alimentar.

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Comentários

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Gabarito B

O trecho citado não constitui um argumento em defesa da alimentação sem ultraprocessados porque, na verdade, apresenta a posição contrária. Ao afirmar que “ultraprocessados não são todos igualmente nocivos” e mencionar um estudo que associa alguns subgrupos a uma menor incidência de diabetes, o texto expõe a visão de Bruno Gualano, que relativiza os efeitos negativos desses alimentos. Essa passagem não reforça a crítica aos ultraprocessados, mas sim questiona a ideia de que todos eles seriam prejudiciais.

Portanto, enquanto o restante do texto se dedica a mostrar os riscos e impactos dos ultraprocessados na saúde, na cultura alimentar e no meio ambiente, esse trecho específico funciona como contraponto.

CFOPMBA

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