A música na era da velocidade: reflexões sobre consumo e
experiência
Se analisarmos os desdobramentos das últimas três décadas,
veremos um movimento acelerado de transformações
tecnológicas e culturais, cujas tendências surgem e
desaparecem em um intervalo muito curto. Vivemos na
“sociedade líquida”, conforme o sociólogo Zygmunt Bauman
(1925-2017), cujo vetor dominante é o da velocidade. Práticas
culturais cotidianas como ler um livro ou um jornal, assistir a um
filme ou ouvir um álbum de música, continuam nos informando,
entretendo e alimentando, mas já não são as mesmas
experiências de outrora. Hoje essas práticas aparecem
fragmentadas, sintetizadas nas linguagens do ciberespaço,
distantes do formato que nos provocava o desejo de mergulho
profundo.
Não quero soar saudosista. Sou fascinado pelas soluções
digitais e reconheço o quanto elas facilitam nossas vidas.
Contudo, como lembra o pensador Edgar Morin, precisamos
praticar o que ele chama de pensamento complexo. É nesse
espírito que convido o leitor a refletir sobre o caso da música –
uma expressão artística fugidia, noturna, de contornos
indefinidos e de inapreensível imaterialidade. Diferentemente de
um quadro que podemos contemplar por longos minutos, a
música escapa no instante em que a ouvimos.
Os discos de vinil são exemplo emblemático. Para além da
função sonora, eles condensavam um universo estético: capas
elaboradas que traduzem visualmente o conceito das músicas,
encartes com letras e imagens, sequências pensadas como
narrativas coesas. Era um convite ao mergulho integral na obra.
Após o reinado dos vinis, o fenômeno do downsizing levou ao
surgimento de mídias mais compactas, como o CD, pequeno,
portátil, moderno, cabia na mochila, no carro ou no discman. Em
seguida vieram os mp3 players, que permitia que criássemos
nossas próprias listas. A experiência musical se individualizou,
fragmentando-se em canções avulsas. O tempo correu ainda
mais rápido até chegarmos à era do streaming, em que
plataformas e algoritmos não apenas oferecem acesso ilimitado,
mas também ditam, em grande medida, o que vamos ouvir. Não
se trata de negar as vantagens desse modelo. O ponto é outro:
até que ponto essa abundância de opções, mediada por
algoritmos, não torna nossas relações mais superficiais?
A música se abre a múltiplas formas de fruição. Alguns a
escutam como pano de fundo para atividades diárias. Outros,
com fones de ouvido, mergulham em melodias e harmonias. Há
quem explore playlists com canções de artistas variados, e há
quem prefira a imersão no vinil, interagindo intensamente com
capas e letras. Nenhum desses modos é superior. Como diria
Wittgenstein, há uma forma de ouvir – e há outra forma de ouvir.
O que me interessa sublinhar é a complexidade dessa arte tão
profundamente entrelaçada às nossas memórias afetivas e às
nossas histórias de vida. Não há problema em consumir música
em um ambiente midiático hiperdinâmico e supersaturado de
estímulos, desde que não nos esqueçamos do impacto
transformador que ela possui. Mesmo em meio à rotina
acelerada, com smartphones sempre à mão, podemos abrir
nosso serviço de streaming favorito e nos entregar à
contemplação de uma obra. Não importa o formato: vinil, CD,
mp3 ou playlist. O essencial é cultivar o espaço para que a
música continue sendo aquilo que sempre foi – uma das
experiências mais intensas de habitar o mundo.