O texto organiza-se como uma sucessão de referências music...

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Q3832829 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.


No ritmo das lembranças


    Às vezes, eu acordo com uma música tocando por dentro, como se alguém tivesse deixado um rádio ligado, esquecido, no último quarto da memória. Hoje comecei o dia com aquela velha sensação de que a música Nada será como antes sussurrava um verso só pra mim, lembrando que nem tudo o que se viveu merece, de fato, ser lembrado. Mas a gente lembra mesmo assim. A cabeça é teimosa e o coração, então, nem se fala. Ele arquiva o que deveria jogar fora e toca, sem parar, aquilo que já não pertence a lugar algum.


    Eu caminhava pelas ruas da cidade quando Djavan cantou Azul. Uma espécie de carinho do destino. Porque não estava tudo azul, coisa nenhuma. Mas a música insistia com aquele otimismo que só as canções antigas sabem sustentar, mesmo quando o mundo insiste em armar tempestades. E, como quem atravessa a cena com outra luz, Todo cambia surge como lembrança de que a vida é inconstante: nem tudo o que aconteceu precisa permanecer, e nem tudo o que permanece precisa doer.


    No meio da tarde, sem aviso, Voyage, Voyage pulou da memória, aquele clima de viagem inventada, de fuga planejada só dentro da cabeça. Lembrei de verões que não vivi e dos tempos em que quis, ao menos, fingir que vivia, apenas para ter histórias para contar. E, como a vida às vezes começa num compasso de samba, peço socorro à Cartola, afinal, até “as rosas que não falam” parecem entender certos silêncios.


    Mas a trilha virou de repente quando ouvi, lá no fundo, Madredeus com Haja o que houver e a melancolia se instalou novamente. A música, que eu não pedi para lembrar, me trouxe um sentimento que também não pedi para sentir. Há canções que são chaves, e basta um verso para abrir uma porta que levamos anos tentando manter fechada.


    À noite, quando já parecia que a nostalgia tinha se acalmado, surgiu Love Theme, do filme Blade Runner. Aquele jeito de lembrança insistente batendo à porta, a sensação de que alguém vai voltar e não volta, um truque da mente, um filme repetido, um flash que engana.


    E, por fim, quando o silêncio quase venceu, entrou The Boxer, tão calma e tão cheia de força disfarçada. The fighter still remains. Acho que foi aí que entendi. Talvez a minha cabeça toque músicas, ________ ainda estou lutando, não contra alguém, mas por mim mesma, pelos pedaços que quero guardar e pelos que preciso deixar ir embora.


    No fim, é sempre assim: cada canção acende uma lembrança, cada lembrança acende uma história, e cada história me devolve um pouco do que fui. Música na cabeça, memória no corpo, Paroles, paroles. E sigo, como quem muda de faixa, mas não perde o ritmo.


Autora: Helô Bacichette – GZH (adaptado). 

O texto organiza-se como uma sucessão de referências musicais que atravessam diferentes momentos do dia e estados emocionais da narradora. Considerando essa construção, assinale a alternativa que interpreta corretamente a função desse encadeamento musical na argumentação do texto. 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a função do encadeamento musical na progressão do texto: as canções aparecem como elementos que organizam momentos do dia e acionam lembranças involuntárias, articulando memória e estados afetivos. Isso orienta a escolha da alternativa A.

Tema central: música, memória e identidade
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque sintetiza exatamente o papel que as canções desempenham no texto: elas acompanham diferentes momentos do dia, surgem de modo involuntário e acionam lembranças, sentimentos e reflexão sobre si. O texto não apenas cita músicas; ele organiza toda a experiência da narradora por meio delas, desde o despertar até o encerramento, culminando na afirmação de que cada canção acende uma lembrança e devolve à narradora “um pouco do que fui”.
B
Errada
Está errada porque desloca a função das canções para exibição de repertório e contextualização histórica, algo que o texto não faz. As referências musicais são usadas para mostrar o funcionamento subjetivo da memória da narradora, como se vê em passagens como “No meio da tarde, sem aviso, Voyage, Voyage pulou da memória” e “A música, que eu não pedi para lembrar, me trouxe um sentimento que também não pedi para sentir.”
C
Errada
Está errada porque trata as músicas como elemento decorativo e acessório, quando elas são o eixo estrutural do texto. A progressão temática depende da sucessão das canções ao longo do dia, e o fecho explicita sua função central: “cada canção acende uma lembrança, cada lembrança acende uma história”. Portanto, elas interferem diretamente no sentido global do texto.
D
Errada
Está errada porque atribui às músicas um papel racionalizante e neutralizador da nostalgia, mas o texto mostra o contrário: elas intensificam a experiência emocional da memória. O trecho “A música, que eu não pedi para lembrar, me trouxe um sentimento que também não pedi para sentir” afasta a ideia de controle racional e confirma que as canções aprofundam melancolia, saudade, esperança e luta interior.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre enumeração de canções e simples ornamento ou demonstração de repertório; no texto, porém, a sequência musical é o mecanismo que organiza tempo, afetos e identidade da narradora.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão perguntar a função de um elemento recorrente, observe se ele reaparece organizando a progressão do texto; se isso ocorrer, ele não é decorativo.
  • Dê peso aos trechos de síntese do próprio texto, porque eles costumam explicitar a relação central entre os elementos recorrentes e o sentido global.
  • Em interpretação, diferencie citação cultural de função textual: o relevante é o que as referências fazem na construção do sentido, não o fato de serem numerosas ou conhecidas.

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