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Q3990879 Pedagogia
TEXTO: ESSENCIALISMO GENÉTICO

A maioria das características humanas é poligênica, depende da interação de vários genes. Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo

Natalia Pasternak


Imagine que você tem olhos castanhos e ambos os seus pais têm olhos claros, azuis ou verdes. Quantas vezes você já teria ouvido que não pode ser filho biológico do casal? A crença de que cor dos olhos é uma herança determinada por um único gene, com alelo dominante (castanho) e alelo recessivo (azul ou verde), vem da maneira simplificada como abordamos genética no ensino fundamental e médio. Quem não se lembra do “Aa” e das tabelas de quadradinhos?


Alguns autores estudam o ensino da genética mendeliana e sua influência na aceitação do chamado essencialismo, ou determinismo, genético. Essa ideia baseia-se no entendimento – enganoso – de que características fisiológicas e comportamentos são produtos lineares de um único gene. Ou seja, haveria um gene para cada característica: o gene da inteligência, por exemplo. O problema é que este tipo de herança é muito raro. A maioria das características humanas é poligênica, depende da interação de vários genes. Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo. Por isso é falso dizer que uma criança de olhos castanhos não pode ter pais de olhos claros.


O determinismo genético também desconsidera interações com o ambiente. Duas plantas da mesma espécie com o mesmo genoma podem ter alturas diferentes, por exemplo, dependendo do tipo de solo, quantidade de luz e nutrientes.


E por que isto é um problema? Porque pode induzir a um “fatalismo” e crenças de que características como inteligência, aptidões, comportamentos e até mesmo suscetibilidade para doenças, são inatas, fixas e imutáveis. Estudos mostraram que o entendimento correto de como funciona a herança genética reduz a crença em ideias baseadas em essencialismo genético, como racismo e eugenia. Os autores de uma pesquisa mediram conhecimento básico de genética, nível de crença em determinismo genético, crenças em dominação social, e crenças em eugenia.


Exemplos de afirmações utilizadas para fazer essas medições incluem “alcoolismo é primariamente causado por fatores genéticos”, “criminosos não deveriam ser autorizados a se reproduzir e deixar descendentes”, e “esterilizar pessoas com características indesejadas pode melhorar gerações futuras”. Os resultados mostraram que quanto maior o entendimento de genética, menor a crença em determinismo, essencialismo, racismo e dominação social de um grupo sobre outro.


A boa notícia é que é fácil corrigir o essencialismo. Pesquisadores conduziram uma série de experimentos controlados com crianças e adolescentes, alterando a maneira como a hereditariedade era ensinada na escola. Perceberam que nos grupos onde a genética era ensinada do modo tradicional, os alunos desenvolviam crenças deterministas, e nos grupos onde o tema era introduzido com estudos sobre diferenças e semelhanças genéticas entre populações, as crenças eram reduzidas. Os autores ainda testaram uma intervenção para corrigir as crenças deterministas, e concluíram que basta uma série de cinco aulas mostrando a baixa diversidade genética entre indivíduos, e que existe maior diversidade entre grupos do mesmo continente do que comparando continentes diferentes.


Gregor Mendel, o monge católico do século 19 cujos experimentos com ervilhas deram origem ao modelo simplificado “Aa”, deve ser celebrado e ensinado nas escolas. Mas a genética mendeliana precisa ser ensinada como parte de um contexto maior, e não como a base de toda a genética e da hereditariedade.


Fonte: https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-da ciencia/post/2025/07/essencialismo-genetico.ghtml. Acesso em 12/02/2026. Fragmento

No terceiro parágrafo do texto, a autora menciona duas plantas da mesma espécie com alturas diferentes. No texto, esse recurso tem a função de:

 

Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a função do exemplo no próprio texto: após afirmar que o determinismo genético desconsidera interações com o ambiente, a autora cita plantas da mesma espécie com alturas diferentes conforme solo, luz e nutrientes. Isso direciona a resposta para a alternativa D.

Tema central: função do exemplo
Análise das alternativas
A
Errada
Errada. O exemplo não trata de dominância e recessividade; o foco está nas condições ambientais, como solo, luz e nutrientes, que alteram a altura das plantas.
B
Errada
Errada. O texto não usa esse exemplo para provar superioridade do modelo de Mendel; ao contrário, critica o uso simplificado da genética mendeliana como explicação total da hereditariedade.
C
Errada
Errada. O texto não nega diferenças genéticas entre indivíduos da mesma espécie. O trecho mostra apenas que, mesmo com o mesmo genoma, o ambiente pode produzir alturas diferentes.
D
Certa
A alternativa D está certa porque o exemplo das plantas com o mesmo genoma, mas alturas diferentes, serve para mostrar que o ambiente interfere nas características visíveis dos seres vivos.
Pegadinha da questão
A confusão era associar qualquer referência à genética a dominância e recessividade, quando o trecho tratava da interação com o ambiente para refutar o determinismo genético.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão perguntar a função de um exemplo, identifique a ideia que ele comprova no trecho anterior.
  • Se o texto menciona solo, luz e nutrientes, o foco é influência ambiental, não herança mendeliana.
  • Crítica ao determinismo genético não significa negar a genética; significa afirmar que genes não atuam isoladamente.

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