Há algo de profundamente cansativo em viver num tempo
que nunca se resolve. Como se a humanidade tivesse entrado
num corredor sem janelas, onde cada porta aberta leva apenas
a outro problema mais complexo, mais barulhento, mais
urgente. E a palavra “crise”, que antes indicava um ponto fora
da curva, hoje parece ser o próprio traçado da linha.
De longe, lá do espaço, a Terra ainda é bonita. Azul,
silenciosa, quase serena. Mas essa imagem não nos pertence
mais. Aqui embaixo, o planeta é outro: fragmentado, tenso,
inquieto. A sensação cotidiana é de estar sempre à beira de um
colapso econômico, de uma ruptura institucional, de um novo
conflito armado, de uma tragédia anunciada que se confirma
antes mesmo de ser compreendida.
Não é só o volume de problemas. É a frequência. Não há
intervalo. Quando uma crise começa a perder força, outra já
tomou o seu lugar, como se o mundo tivesse desaprendido a
respirar. Vivemos em estado de alerta permanente,
anestesiados pela repetição do absurdo. E talvez esse seja o
maior perigo: não o caos em si, mas a adaptação a ele.
Há uma exaustão silenciosa que atravessa as pessoas. O
cidadão comum acorda, trabalha, paga contas, tenta manter
alguma sanidade enquanto assiste, quase como espectador, ao
desenrolar de decisões que afetam tudo, mas que parecem
sempre distantes do seu alcance.
E então surge a pergunta incômoda, quase inevitável:
onde foi que erramos? Em que momento aceitamos que viver
assim era normal? Talvez não haja uma resposta única. Talvez
o erro seja coletivo, diluído em pequenas escolhas, omissões,
indiferenças acumuladas ao longo do tempo.
O fato é que seguimos. Entre uma manchete e outra,
entre o medo e a esperança, tentando encontrar algum sentido
no meio do ruído.
Eu acreditei durante a pandemia que sairíamos diferente
daquela experiência global de medo. Achei, na minha
inocência, que passaríamos a compreender mais uns aos
outros.
Até quando vamos tratar o caos como rotina? Porque uma
crise sem fim deixa de ser exceção. E passa a ser,
perigosamente, o nosso jeito de existir.
Autor: Marco Matos – GZH (adaptado).
No trecho “De longe, lá do espaço, a Terra ainda é bonita.
Azul, silenciosa, quase serena. Mas essa imagem não nos
pertence mais”, a oposição entre a visão da Terra à distância e
a experiência “aqui embaixo” contribui para: