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Q642180 Português

      Todos os que já se concentraram sobre o tema constatam, sem maiores dificuldades, que não se trata de coisa fácil definir o que é saúde.

      Saúde faz parte daquele conjunto de termos paradoxais que, de um lado, são usados na fala de todos os dias e, de outro, são de muito difícil definição ou identificação como entidades concretamente existentes.

      Uma das maiores dificuldades para se definir saúde consiste em que, não sendo, em si, uma coisa ou fato, só passa a sê-lo através ou a partir da doença ou mal-estar, estes sim, como já assinalava Schopenhauer, coisas ou fatos incontestes.

      Com efeito, qual, em português, o nome ou expressão linguística positiva para o “fato” saudável que se pode identificar como “ausência de dor de barriga”? Nenhum, e isso pela simples razão de que, ao contrário da linguisticamente “positiva” “dor de barriga”, ato real e perfeitamente atestável, a ausência desta não existe como entidade nomeável positivamente fora da comparação com a dor de barriga. E isso por quê? Porque a ausência de dor de barriga (ou de cabeça, ou nas costas, ou qualquer outra), em si, faz parte daqueles estados considerados “normais” e, portanto, “não merecedores” de um nome específico.

      Isso é um indicador de que a saúde é algo transitório, que se pode e que se costuma com frequência “perder”, ao contrário da doença, entidade original e mais permanente: com efeito, pode-se perguntar por que, entre nós brasileiros, pode-se dizer “Eu perdi minha saúde”, mas não se pode dizer “Eu perdi minha doença”.

Lefévre, Fernando. Mitologia Sanitária: Saúde, Doença, Mídia e Linguagem. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.

De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa e levando em consideração o quarto parágrafo do texto e as orientações da prescrição gramatical no que se refere a textos escritos, assinale a alternativa correta.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A questão testa a concordância nominal com substantivos coordenados e adjetivo posposto no trecho "qual, em português, o nome ou expressão linguística positiva para o “fato” saudável". Nessa estrutura, o adjetivo pode concordar com o núcleo mais próximo ou ir para o plural para retomar os dois núcleos; por isso, a forma apresentada na alternativa B é compatível com a norma-padrão.

Tema central: Concordância nominal
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque "Com efeito" introduz confirmação ou explicação do que foi dito antes, enquanto "Entrementes" tem valor temporal, incompatível com esse ponto do argumento. Como a alternativa afirma substituição sem prejuízo por "Entrementes" e "Decerto", ela falha já pela inadequação semântica de "Entrementes".
B
Certa
A alternativa B se sustenta na regra de concordância nominal aplicada ao segmento do texto. Em "o nome ou expressão linguística positiva", o adjetivo posposto pode ficar no singular, concordando com o substantivo mais próximo, "expressão"; e também pode ir para o plural, "positivos", para retomar os dois núcleos coordenados, "nome" e "expressão". Portanto, as duas formas são gramaticalmente aceitáveis na estrutura indicada.
C
Errada
Está errada porque, em "e isso pela simples razão de que", "pela" integra uma locução causal-explicativa com regime sintático próprio. A troca por "devido a" ou "em virtude da" não preserva diretamente esse encaixe; a frase precisaria ser reconfigurada, e não apenas substituída de modo literal.
D
Errada
Está errada porque o texto traz duas estruturas distintas: a pergunta direta "E isso por quê?" e a resposta explicativa iniciada por "Porque". A reescrita proposta, "E isso por que a ausência de dor de barriga (...)", elimina a interrogatividade e funde indevidamente pergunta e resposta, com prejuízo sintático e discursivo.
E
Errada
Está errada porque a conjunção "e" participa da articulação do período e da progressão argumentativa no texto escrito formal. Sua retirada não é neutra: altera o encadeamento do raciocínio e, por isso, a alternativa não pode afirmar que não haveria prejuízo nem de sentido nem de correção.
Pegadinha da questão
A banca misturou concordância nominal, valor de conectores e emprego de "por que/por quê/porque". A confusão estava em tratar tudo como simples troca vocabular, quando o ponto decisivo era a possibilidade normativa de concordância no trecho citado.
Dica para questões semelhantes
  • Se houver dois substantivos coordenados seguidos de adjetivo, verifique se o adjetivo concorda com o mais próximo ou se pode ir para o plural para retomar ambos.
  • Não aceite substituição de conectores só porque o sentido parece próximo; confira o valor semântico e o encaixe sintático no período.
  • Em "por que/por quê/porque", observe a função no enunciado: pergunta direta no final pede "por quê"; resposta explicativa pede "porque".

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