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O que uma menina de 9 anos tem a nos ensinar sobre propósito?

Encontrar um propósito através do qual se consiga deixar sua marca no mundo ou um sentido para aquilo que se faz todos os dias tornou-se um fenômeno.

Luciana Rodrigues    6 de abril de 2022   

    Em uma das despretensiosas conversas que tive com a Isadora, minha filha de 9 anos, ela soltou, como quem não quer nada: “Sabia que todo mundo quer ser lembrado?”. Sem entender muito bem como ela tinha chegado a essa conclusão, pedi-lhe para que me contasse um pouco mais sobre essa sua observação. 

    “Quando eu crescer, quero abrir um café. Acho triste passar pelo mundo sem deixar alguma coisa para as pessoas lembrarem da gente”. Mesmo sem saber ao certo de onde veio essa inspiração repentina, confesso que meu lado mãe-fã-númeroum ficou super orgulhoso. 

    Indo além das paredes do meu apartamento, encontrar um propósito, através do qual se consiga, de fato, deixar sua marca no mundo – como sonha a Isadora –, ou ainda, conseguir um sentido para aquilo que se faz todos os dias, tornou-se um fenômeno que une de tech-nerds do Vale do Silício a profissionais dos mais variados cargos e salários pelo Brasil e o mundo. Obviamente, isso só é possível quando a base da Pirâmide de Maslow (lembra dela?) está muito bem estabelecida. 

    Nos EUA, existe até um nome para esse movimento: “The Great Resignation” ou “A Grande Demissão”. Segundo o U.S. Department of Labor, só no último mês de fevereiro, 4,4 milhões de americanos deixaram seus empregos formais. Os motivos para esses números vão do desejo de fazer mudanças drásticas na carreira à necessidade de largar a profissão para cuidar de crianças ou parentes idosos. Além de sintomas típicos dos tempos atuais, como o burnout e o sentimento de abismo existente entre o que as pessoas acreditam e os valores do seu empregador. 

    Os números não afirmam, categoricamente, qual é o principal fator para essa debandada de trabalhadores, mas uma coisa é certa: para milhões de pessoas ao redor do mundo, a pandemia veio para rever suas prioridades. A remuneração deixa de ser o fator decisivo para a permanência em um emprego, ganhando relevância questões que, há poucos anos, ficavam em segundo plano, como modelos híbridos e flexíveis de trabalho, tempo gasto em deslocamentos, equilíbrio maior entre vida pessoal x trabalho, e até mesmo afinidade com o propósito da empresa.

    Para Ariana Huffington: “A Grande Demissão na verdade é uma Grande Reavaliação. O que as pessoas estão abandonando é uma cultura de esgotamento e uma definição quebrada de sucesso. Ao deixar seus empregos, as pessoas estão afirmando seu desejo por uma maneira diferente de trabalhar e viver”. 

    Conheci uma dessas histórias de perto, em um dos encontros mensais que organizo na empresa em que atuo como CEO. A ideia dos bate-papos é trazer novos repertórios para dentro da nossa rotina de trabalho, com convidados que, à primeira vista, não têm nada a ver com o nosso “core-business”, mas que ajudam imensamente a furar a bolha em que vivemos. 

    Um desses convidados foi uma enfermeira. Uma mulher muito culta, expansiva e encantadora que, no alto dos seus 30 anos, decidiu dar uma guinada em sua vida. Depois de um período sabático pela América Latina, decidiu abandonar uma carreira bem-sucedida na área do entretenimento e estudar enfermagem. Uma profissão com menos perspectivas financeiras, mas completamente alinhada com o seu chamado. 

    “Para alguns, hospital significa morte. Para mim, é sinônimo de vida”. Essa foi uma das frases ditas por ela que mais me impactou em seu depoimento, e que, por semanas, me fez refletir sobre sua história de coragem e seu olhar transformador. 

    Mas não espere respostas certas nos momentos certos. Cada um tem seu tempo e suas formas de encontrá-las. Sabemos tão pouco sobre nós. Por isso, investir seu tempo (que também é dinheiro) em coisas que ninguém pode tirar de você, como autoconhecimento, é a decisão mais sábia que você pode tomar. É um processo transformador, que envolve desconforto, mas que vai te colocar numa posição de maior controle das suas emoções. 

      Não passe uma vida inteira esperando algo que ninguém jamais poderá lhe oferecer. 

    E, se eu pudesse dar mais uma dica, seria: assim como no mercado financeiro, nunca invista todo seu patrimônio em só um ativo. Não fique esperando que o trabalho supra todas as suas necessidades. Encontre um hobby. Dedique-se a um trabalho voluntário. Seja mentor de um jovem aprendiz. Ou, então, coloque no papel um plano para daqui a 2 anos e persiga-o incansavelmente. 

    Talvez “A Grande Demissão” seja um movimento coletivo de pessoas querendo encontrar seu verdadeiro propósito aqui na Terra. Ou, talvez, uma oportunidade para que consigam usar suas histórias para dar sentido às próprias vidas. Mas também pode ser apenas o reflexo de dois anos  trancados em casa, e o desejo por uma mudança, seja ela qual for. 

    Na animação da Pixar “Viva – A Vida é uma Festa”, de que aliás, a Isadora é fã, é contada a história do “Dia de Los Muertos”, típica tradição mexicana de celebração aos que se foram. Diz-se que, após a morte de uma pessoa, ela vai para o mundo dos mortos e permanece lá apenas enquanto os vivos ainda se lembrarem dela. Quando for esquecida, aí, sim, será seu verdadeiro fim. 

    Não posso afirmar que veio daí a inspiração para a reflexão inicial da Isa, mas a conversa, que começou com uma questão existencial, terminou com: “Mamãe, qual é o sentido da vida?”. Dei a última mordida no pão de queijo e respondi: “Isa, que tal fazermos um brigadeiro?” 

Luciana Rodrigues é CEO da Grey Brasil, conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial e do comitê estratégico de presidentes da Amcham.   

Vocabulário:

tech-nerds: estudiosos de tecnologia.

• CEO: diretor executivo.

core-business: negócios principais.

burnout: síndrome de esgotamento mental no trabalho.

hobby: passatempo, atividade para lazer. 


RODRIGUES, Luciana. O que uma menina de 9 anos tem a

nos ensinar sobre propósito? Forbes Brasil, 06 de abril de

2022. Colunas. Disponível em:

https://forbes.com.br/coluna/2022/04/luciana-rodrigues-o-que-uma-menina-de-9-anos-tem-a-nos-ensinar-sobre-proposito/

No sexto parágrafo, a autora menciona uma fala de Ariana Huffington em que há a expressão “definição quebrada de sucesso”. Tal expressão quer dizer
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Interpretação de Texto, com foco na semântica e no significado de expressões idiomáticas em contexto. O candidato precisa compreender como uma expressão figurada (“definição quebrada de sucesso”) reflete crítica à ideia tradicional de sucesso no trabalho.

Justificativa da alternativa correta (D):

O texto afirma que muitos trabalhadores passaram a questionar a cultura de esgotamento e a “definição quebrada de sucesso”. Nesta expressão idiomática, “definição quebrada” significa uma concepção falha, distorcida, incompleta ou inadequada sobre o que é ser bem-sucedido, pois desconsidera fatores essenciais, como bem-estar, saúde física e mental, equilíbrio vida-trabalho.

A alternativa D ("sucesso profissional que não leva em consideração eventuais prejuízos à vida do trabalhador") traduz precisamente o sentido questionado: trata-se do sucesso definido apenas por desempenho ou status profissional, ignorando prejuízos pessoais e emocionais — exatamente o problema denunciado no texto, de acordo com Ariana Huffington.

Trata-se de habilidade fundamental em provas de concurso: identificar o sentido figurado de expressões no texto, conforme recomenda a gramática normativa (Cunha & Cintra; Bechara) e manuais de redação.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Quebra de expectativas do empregador” – Não é isso que compõe a “definição quebrada”, e sim a estrutura de sucesso inadequada.
B) “Quebra de limites entre pessoal e profissional” – O foco do texto não é a mistura dos ambientes, mas sim a crítica ao conceito de sucesso que prejudica o trabalhador.
C) “Sucesso escolar/acadêmico” – O texto trata do ambiente de trabalho, não do escolar.
E) “Expectativas familiares” – O texto não relaciona “definição quebrada” com pressões familiares, mas com o modelo de sucesso no emprego.

Estrategicamente: Atente-se sempre a palavras-chave que sugerem críticas, como “esgotamento”, “cultura”, “abandono”, pois elas conduzem ao sentido figurado de termos destacados pelos autores dos textos.

Conforme a Moderna Gramática (Bechara), a correta interpretação do texto exige atenção aos elementos implícitos e ao uso de expressões idiomáticas, que frequentemente aparecem em contextos de crítica.

Resumo: Alternativa D é correta porque associa “definição quebrada de sucesso” à crítica ao sucesso profissional que ignora o bem-estar do trabalhador. As demais alternativas não dialogam com o sentido trago pelo texto.

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Comentários

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Gabarito: D

O que as pessoas estão abandonando é uma cultura de esgotamento e uma definição quebrada de sucesso.

Se estressar pra que, to caindo fora da empresa me paga meu seguro desemprego e já eras

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