A análise fonológica e ortográfica dos vocábulos empregados ...

Ver outras questões
Usar o filtro de questões
Q4319898 Não definido
A sopa 


    Subiu lentamente a escada, arrastando os pés. Estacou para respirar apenas uma vez, no meio dos trinta degraus: ainda era um homem. Entrou na cozinha e, sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa. Ela encheu o prato de sopa, colocou-o diante do marido.

    Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.

    – Aonde é que vai?

    O filho abriu a torneira do banheiro:

    – Fazer a barba.

    – Hora da janta. Vem comer.

    Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.

    – Não quero jantar. Sem fome.

    O homem suspendeu a colher:

    – Não quer jantar, mas vem para a mesa.

    Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos lábios; grossos, tragava-o com delícia. O filho desenhava com o garfo na toalha de flores estampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo.

    – Vou dar uma volta.

    O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.

    – Saiu agora do quarto, filho de barão! Mas eu... Quando me deitar de dia na cama! É para morrer!

    A mão do filho abandonou o garfo e não se mexeu.

    – Volta cedo, não é?

    A voz cansada da mãe, ainda de costas para a mesa. Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho? O homem esvaziou o prato e, descansando a colher, examinou as mãos enrugadas.

    – Estas mãos – sacudidas de ligeiro tremor – de um velho!

    A mulher apanhou o prato, encheu-o até a beirada. O marido retorceu as pontas úmidas do bigode:

    – Você não come?

    O filho contornava com o garfo as pétalas na toalha.

    – Não estou com vontade.

    – Depois o senhor vai para o quarto.

    Cheirava a colher e sorvia a sopa, estalando a língua. O filho ergueu-se da mesa.

    – O senhor fica sentado. Não tem pão nesta casa?

    A mulher trouxe o pão. Ele não o cortava: agarrava-o inteiro na mão e mordia várias vezes; em seguida partia-o em pedaços, alinhados diante do prato, atacando um por um, entre as colheradas.

    – Volta cedo, não é, meu filho?

    De novo a mãe, nunca aprenderia.

    – Agora não vou mais. O pai dizia a última palavra:

    – Uma vergonha! O chefe tem de jantar sozinho. O filho preguiçoso... até para comer. A mulher – com seus brados retiniam os talheres – tem o estômago delicado.

    Não se mexeu, curvada sobre o fogão.

    – Olhe para mim quando falo com a senhora!

    Ela se virou, a enxugar as mãos na saia.

    – Depois de velha, melindrosa. Não pode comer com o rei da casa, que lhe sustenta o filho e lhe dá o dinheiro?

    – Sabe por que não sento.

    Os dois a olharam com espanto, nunca discutiu as ordens do marido.

    – Sei não, dona princesa. Pois me conte.

    Ele pedia, a colher no ar:

    – Perdeu a coragem, que não fala?

    Outra vez a mulher deu-lhe as costas.

    – Só nojo de você.

    Ele começou a soprar, manchava de borrifos a toalha.

    – O quê? O quê? Repita, mulher.

    A dona abriu o fogão, espertou as brasas, encheu-o de lenha:

    – Nada espero da vida. Mas não posso te ver comer. Sei que é triste para a mulher ter nojo do marido. Você chupa a colher se fosse tua última sopa. Come o pão como se eu fosse te roubar. Não sei o que fiz a Deus para esse castigo mais desgraçado. Fui boa mulher, ainda que tenha nojo. Lavo tua roupa, deito na tua cama, cozinho tua sopa. Faço isso até morrer. Me peça o que quiser. Não que me sente a essa mesa com você e tua sopa.

    O filho abandonou a cozinha e desceu a escada. Os dois ouviram bater a porta da rua.

    O marido encarou primeira vez a mulher. Baixou os olhos, cabelos de gordura boiavam no caldo frio. Erguendo um lado do prato, acabou o resto de sopa e lambeu a colher.


(TREVISAN, D. Novelas Nada Exemplares. Rio de Janeiro: Record, 2020. Adaptado)
A análise fonológica e ortográfica dos vocábulos empregados em um texto literário revela as peculiaridades estruturais da norma-padrão da Língua Portuguesa. A respeito de aspectos fonéticos, ortográficos e de acentuação de termos extraídos do conto, analise as afirmativas a seguir.

I. A estrutura silábica das palavras “delícia” e “esfomeado” – “Todas as noites, esfomeado [...] tragava-o com delícia.”(11º§) – revela identidade quanto à classificação de seus encontros vocálicos, visto que ambas encerram ditongos em suas sílabas finais.
II. O adjetivo “capitosos”, em “vapores capitosos” (2º§), ilustra um caso de metafonia na língua portuguesa; ou seja, o processo no qual a vogal tônica originalmente fechada no singular (/ô/) sofre abertura de timbre (/ó/) quando flexionada no plural.
III. O vocábulo “boiavam”, em “[...] cabelos de gordura boiavam no caldo frio.” (47º§), prescinde de acento gráfico em conformidade com as regras ortográficas vigentes, as quais determinaram a extinção do acento agudo nos ditongos abertos “ei” e “oi” das palavras paroxítonas.
IV. Nos vocábulos “lentamente”, em “Subiu lentamente a escada, [...]” (1º§), e “cozinha”, em “Entrou na cozinha [...]” (1º§), verifica-se a ocorrência de dígrafos de naturezas distintas: na primeira palavra, há duas ocorrências de dígrafos vocálicos; na segunda, há um dígrafo consonantal.

Está correto o que se afirma apenas em
Alternativas