Há na narrativa informações que indicam que:

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q1816379 Português

Eu, Mwanito, o afinador de silêncios


    A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

    Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

     — Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

    Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:

    — Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

    Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.

     —Você sabe, filho: há a calmaria dos cemitérios. Mas o sossego desta varanda é diferente. Meu pai. A voz dele era tão discreta que parecia apenas uma outra variedade de silêncio. Tossicava e a tosse rouca dele, essa, era uma oculta fala, sem palavras nem gramática.

    Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso progenitor.


(COUTO, Mia. Antes de nascer o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Fragmento adaptado.)

Há na narrativa informações que indicam que:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Interpretação de textos. Esta questão exige do candidato a capacidade de identificar ideias explícitas e implícitas, compreender relações entre personagens e perceber sentimentos subentendidos, aplicando os conceitos de coesão e coerência textual conforme orientam Fiorin e Beth Brait.

Comentário da alternativa correta – B:

A resposta B está correta porque, ao longo do texto, o narrador expressa um desconforto implícito com seu papel junto ao pai. A passagem citação "uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso progenitor" revela que ainda que cumpra a função de 'ajudar o pai a ficar calado', o faz com um sentimento de incómodo ou conflito interno, mostrando que, mesmo dotado do “dom natural” do silêncio, não se sentia plenamente à vontade. Este tipo de compreensão requer atenção às informações implícitas do texto – habilidade valorizada em provas de concursos.

Análise das alternativas incorretas:

A) Afirma uma imposição do pai quanto ao "legado do silêncio". Não há no enredo qualquer indicação de que o pai impôs esse silêncio; o texto fala em inclinação natural do narrador e hipótese de herança materna (‘Talvez fosse legado de minha mãe...’), sem imposição.

C) Sugere relação problemática e falta de diálogo franco. Pelo contrário, o texto revela uma cumplicidade silenciosa entre pai e filho, sem traços de conflito, mas sim de compreensão partilhada.

D) Fala sobre associações com "modelos típicos de famílias", o que não é abordado no texto. O narrador não reflete sobre outros padrões familiares, mas sobre sua experiência singular ao lado do pai.

Estratégias fundamentais para questões de interpretação:

Leia buscando sentimentos, valores e relações além do literal, identifique expressões subjetivas (como “culpa”, “sossego”, “escolhido”), e compare cada alternativa ao texto para descartar generalizações, inferências distorcidas ou informações ausentes. Como reforça Cunha & Cintra, “a compreensão depende do reconhecimento dos sentidos globais e das entrelinhas”.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Hein?

Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito.. esse trecho deixa claro que ele era o escolhido Por seu pai para ajudá-lo com o silêncio e seu irmão ficava de Longe Olhando a cena o que não o deixava confortável.

Percebe-se um sentimento de culpa expresso no trecho:

Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso progenitor.

Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso progenitor.

GABARITO:B.

ÚLTIMO PARÁGRAFO

 Ao longe, se entrevia, na janela da casa anexa, uma bruxuleante lamparina. Por certo, meu irmão nos espreitava. Uma culpa me raspava o peito: eu era o escolhido, o único a partilhar proximidades com o nosso progenitor.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo