Minha mãe tinha um caderninho de receitas, talvez mais
de um.
Seu caderno de receitas, como o da maioria das mães
daquele tempo, era uma mistureba de anotações e recortes
de impressos que vinham de revistas e embalagens
de alimentos.
Ele sumiu, foi perdido. Talvez esteja no meio das tralhas
na casa da velha, talvez tenha sido emprestado e
nunca devolvido.
Como a mãe está inacessível, presa em sua cabeça com
Alzheimer avançado, disponho apenas de meus próprios
recursos quando quero reproduzir uma receita dela.
Deixo‑me guiar pela memória sensorial e por aquilo que
observei na cozinha da dona Ana Bertoni. Então preencho
as lacunas com minha experiência e meus gostos.
Sou um cara das antigas. Não deve demorar muito até que
a inteligência artificial substitua as receitas familiares.
Ninguém mais tem caderno de receitas, nem as mães.
Aliado a isso, ninguém anota nada à mão. Quase ninguém
recorre à mídia física quando quer cozinhar algo diferente.
Eu tenho dezenas de livros de culinária que raramente são
tocados. É muito mais prático buscar informação on‑line.
Com o inevitável avanço da IA, essas buscas serão
cada vez mais direcionadas a robôs que pretensamente
entregam um resultado mais personalizado.
Estive recentemente num congresso em Madri que tinha
como uma das principais discussões a aplicação da
inteligência artificial na gastronomia.
Numa das palestras, foi apresentado um troço
(programa? aplicativo?) destinado a criar cardápios para
restaurantes que trabalham com menu fixo no almoço.
Você alimenta a coisa com parâmetros como estilo
culinário, custo e número de serviços.
Aí a parada sugere, para a segunda‑feira, salada de
batatas, frango com legumes, creme de papaia. Para a
terça, salada de legumes, papaia com batatas, creme de
frango. E assim por diante. A inovação dispensa a
necessidade de um chef. Ela prescinde de criatividade.
Inteligência artificial não cria nada, só recicla conhecimento
gerado por humanos. Por isso as mães são muito melhores.
FOLHA DE SÃO PAULO. Folha de S.Paulo, Cozinha
Bruta, 9 maio 2025, p. C 16 (adaptado).
O título “Inteligência artificial vai substituir sua mãe” contém
uma afirmação provocativa e irônica para
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