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Q475844 Português
                                      Meter a língua onde não é chamado

    Azeite, não é meu parente! Nem todos entendem, mas a língua que se falava antigamente era tranchã, era não?

    As palavras pareciam todas usar galocha, e eu me lembro como ficava cabreiro quando aquela teteia da rua, sempre usando tank colegial, se aprochegava com a barra da anágua aparecendo, vendendo farinha, como se dizia. Só porque tinha me trocado pelo desgramado que charlava numa baratinha, ela sapecava expressões do tipo “conheceu, papudo?!", “Ora, vá lamber sabão", eu devolvia de chofre, com toda a agressividade da época, “deixa de trololó, sua sirigaita".

    A língua mexe, pra frente e pra trás, e assim como o bacana retornou guaribado para servir de elogio nos tempos modernos, pode ser que breve, na legenda de uma foto da Daniela Cicarelli, os jornais voltem a fazer como diante da Adalgisa Colombo outrora, e digam que ela tem it, que ela é linda, um chuchu. São coisas do arco da velha, vai entender?! Não é só o mistério da ossada da Dana de Teffé que nos une ao passado. Não saberemos nunca, também, quem matou o mequetrefe, a pinimba, o tomar tenência e o neca de pitibiribas, essas delícias vocabulares que enxotadas pelo bom gosto gramatical picaram a mula e foram dormitar, como ursos no inverno, numa página escondida do dicionário.

    Outro dia eu disse para as minhas filhas que o telefone estava escangalhado. Morreram de rir com esse maiô Catalina que botei na frase. Nada escangalha mais, no máximo não funciona. Me acharam, sem usar tamanho e tão cansativo polissílabo, um completo mocorongo. Como sempre, estavam certas. Eu tenho visto mulheres de botox, homens que escondem a idade, tenho visto todas as formas de burlar a passagemdo tempo,mas o que sai da boca tem data. Cuidado cinquentões com o ato falho de pedir um ferro de engomar, achar tudo chinfrim, reclamar do galalau que senta na sua frente no cinema e a mania de dizer que a fila do banco está morrinha. Esse papo, por mais que você curta música techno e endívias, denuncia de que década você veio.
    [...]
    Uma língua bem exercida é metida, jamais galinha morta. É feita de avanços e recuos, e se isso parece reclame de algum programa do canal a cabo Sexy Hot, digamos que, sim, pode ser. Língua, seja qual for, é erótica. Dá prazer brincar com ela. Uma lambida no passado envernizaria novamente palavras que estavam lá, macambúzias e abandonadas, como quizumba, alaúza e jururu, expressões da pá virada como “na maciota", “onde é que nós estamos!" e “ir para a cucuia". Certamente, por mais cara de emplastro Sabiá que tenham, elas dariam na verdade uma viagrada numa língua que tem sido sacudida apenas pelo que é acessado do cibercafé e o demorô dos manos e das minas.

    Meter a língua onde não é chamado pode ser divertido. Lembro de Oscarito passando a mão na barriga depois de botar pra dentro uma feijoada completa e dizer, todo preguiçoso e feliz, “tô comuma idiossincrasia!". Estava com o bucho cheio, empanturrado de palavras. Troque essa dieta de alface americana, de palavras transgênicas gordas, compridas e nonsenses como um paio de porco. É o banquete que eu sugiro, que anda na moda mas não vale um caracol. Caia de boca num sarrabulho com assistência na porta, umpifão de tirar uma pestana do caramba, uma car raspana batuta. Essa idiossincrasia vai fazer sentido. Se alguém, depois de receber todas essas palavras de lambuja, repetir a mamãe das antigas e, amuado, gritar “dobre a língua", não se faça de rogado-estique.

               SANTOS, Joaquim Ferreira dos.Meter a língua onde não é chamado . Jornal “O Globo", 08/09/2003, 2º Caderno. Disponível emwww.releituras.com.

Sobre o tema abordado no texto, é possível afirmar, corretamente:
Alternativas

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Vamos analisar a questão proposta, que envolve a interpretação de um texto sobre a língua e sua relação com o falante.

Tema da Questão: Interpretação de Texto

O enunciado nos pede para identificar a afirmação correta sobre o tema abordado no texto. É crucial compreender que o texto discute como a linguagem evolui e se relaciona com seus falantes ao longo do tempo.

Alternativa Correta: A - fala explicitamente da linguagem e de sua relação como falante.

Vamos entender por que essa alternativa está correta:

A alternativa A é a correta porque o texto explora a relação dinâmica entre a língua e seus falantes, destacando como as expressões e palavras mudam com o tempo. O autor reflete sobre a evolução da linguagem e como ela é percebida em diferentes contextos históricos e sociais. O uso de expressões antigas e a comparação com as modernas ilustra essa relação explícita.

Agora, vejamos por que as outras alternativas estão incorretas:

B - questiona os efeitos da linguagem culta em detrimento da informal.

A alternativa B está incorreta porque o texto não faz uma comparação direta entre linguagem culta e informal, nem critica uma em favor da outra. O foco está na transformação da linguagem ao longo do tempo.

C - busca explicações específicas, para justificar a paralisia das palavras.

A alternativa C está incorreta porque o texto não está buscando justificar uma "paralisia" das palavras. Pelo contrário, ele destaca a mudança e adaptação contínua da linguagem.

D - explica o porquê da evolução da linguagem infantojuvenil.

A alternativa D está incorreta porque o texto não foca especificamente na evolução da linguagem infantojuvenil, mas sim na evolução geral da linguagem ao longo do tempo.

E - sintetiza a relação existente entre fala e escrita da língua portuguesa.

A alternativa E está incorreta porque o texto não está sintetizando a relação entre fala e escrita. Ele se concentra mais na evolução das palavras e expressões na fala em diferentes épocas.

Para resolver questões de interpretação de texto como esta, é importante identificar as palavras-chave e o propósito do autor. Observe o uso de marcas temporais e expressões que indicam mudança e comparação.

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