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Q2114340 Português
Os saltos da natureza

    “Natura non facit saltus” (a natureza não dá pulos). A frase é do filósofo alemão Leibniz, mas quem a popularizou foi Charles Darwin, que a repete seis vezes em “A Origem das Espécies”. Não é para menos. A lição fundamental do darwinismo é que a evolução ocorre através de pequenas modificações que se acumulam na profundidade do tempo geológico. Todavia, quando se discute o lugar do homem no mundo biológico, esquecemos esse princípio e embarcamos em narrativas que nos colocam no ápice da criação.
      Esse suposto excepcionalismo humano fica escancarado na questão da consciência. Por muito tempo a descrevemos como atributo exclusivamente humano. Melhores e mais recentes pesquisas, entretanto, vão revelando que não é bem assim. Ainda que bichos não se mostrem capazes de perguntar pelo sentido da vida, há indícios de que boa parte do reino animal apresenta algum grau de consciência.
       O livro “Super Fly” (supermosca), de Jonathan Balcombe, estende esse esforço aos Diptera, ordem que inclui moscas, mosquitos, mutucas e borrachudos. O autor descreve vários experimentos sugestivos de que até as modestas moscas de fruta são capazes de comportamentos flexíveis e com intencionalidade – marcas da consciência. Parentes delas, três tipos de formiga passariam até no teste de se reconhecer no espelho, categoria em que está a elite intelectual da bicharada, representada por humanos, chimpanzés, golfinhos e mais poucas espécies.
      As repercussões desses achados para a ética não são desprezíveis. Fica mais difícil encontrar limites naturais para definir quais animais devem ser objeto de nossa consideração moral e quais não precisam. Qualquer decisão aí soará caprichosamente arbitrária.
       Os Diptera saem em desvantagem. Eles não despertam muita solidariedade humana. Não sem motivos. Metade de todos os diagnósticos clínicos de doenças feitos no mundo tem insetos como agente causador, a maior parte mosquitos.

(Hélio Schwartsman. https://www1.folha.uol.com.br. 09.07.2022. Adaptado)
Ao introduzir o assunto do texto, no primeiro parágrafo, o autor
Alternativas

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Tema central: Interpretação de Texto – O objetivo é compreender a tese e a intenção do autor ao introduzir o tema, focando em semântica, coesão e coerência textual.

Alternativa correta: DDefende que o princípio fundamental sobre a evolução das espécies é negligenciado ao se analisar o papel do homem.

O raciocínio exige identificar o ponto central do 1º parágrafo: o princípio "Natura non facit saltus" (“a natureza não dá pulos”), repetido por Darwin como base da evolução por pequenas mudanças, é frequentemente ignorado quando o assunto é o papel do ser humano. O autor demonstra crítica ao fato de, ao mencionarmos o homem, “esquecermos esse princípio” e optarmos por narrativas que colocam o humano no topo da criação.

Estratégia de leitura: Procure sempre palavras-chave como “esquecemos esse princípio” e conectivos de oposição (“todavia”, “porém”), que geralmente indicam mudanças no argumento ou crítica, essenciais para encontrar a tese.

Justificativa da alternativa (D): O uso do verbo “negligenciado” (deixado de lado, esquecido) corresponde literalmente ao trecho do texto: “esquecemos esse princípio”. Isso demonstra entendimento semântico e permite afirmar, com segurança, que o autor faz uma crítica à desconsideração desse fundamento ao tratar do lugar do homem na biologia.

Análise das alternativas incorretas:

  • A – Afirma que o autor relativiza a originalidade de Darwin, mas não há crítica ou comparação aprofundada entre Leibniz e Darwin, apenas a menção da origem da frase.
  • B – Diz que o livro impulsionou ideias de superioridade humana, o que não está no texto. O autor justamente critica o uso impróprio desse raciocínio.
  • C – Aponta referência às características humanas para confrontar a evolução gradual, porém o texto não apresenta esse confronto explícito no primeiro parágrafo.
  • E – Sugere que o autor ressalta riscos de contestar o destaque humano, mas o texto faz o oposto: critica o excepcionalismo humano.

Referência normativa: Segundo Cunha & Cintra e Evanildo Bechara, a interpretação correta exige identificar ideia principal, intenção do autor e correspondência semântica entre alternativas e trechos do texto.

Dica para provas: Fique atento ao uso de pronomes, negações (“não é para menos”, “esquecemos esse princípio”) e elementos de oposição — eles costumam esconder a crítica central do autor.

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Gabarito: D

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A lição fundamental do darwinismo é que a evolução ocorre através de pequenas modificações que se acumulam na profundidade do tempo geológico. Todavia, quando se discute o lugar do homem no mundo biológico, esquecemos esse princípio e embarcamos em narrativas que nos colocam no ápice da criação.

Gabarito d

A lição fundamental do darwinismo é que a evolução ocorre através de pequenas modificações que se acumulam na profundidade do tempo geológico. Todavia, quando se discute o lugar do homem no mundo biológico, esquecemos esse princípio e embarcamos em narrativas que nos colocam no ápice da criação.

GABARITO D

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